Memes: uma linguagem contemporânea

por Rafael José Nogueira - 05 de agosto de 2017

  1. Apresentação:

 

Você sabe o que é um meme? Confira!

 

  1. Conceituação:

O meme se inscreve na atualidade como uma linguagem Contemporânea. O conceito de meme foi cunhado por Richard Dawkins, em seu livro “O Gene Egoísta”, publicado em 1976. Dawkins compara a evolução cultural com a evolução genética, onde o meme é o “gene” da cultura, que se perpetua através de seus replicadores, as pessoas. Assim o meme virtual é uma derivação dessa teoria maior de trocas culturais de Dawkins. Lupinacci nos oferece um conceito mais abrangente sobre o que seria um meme: [1]

 

[…] trata-se de um conjunto de unidades culturais – não restritas a um único formato, mas que necessariamente compartilham de características em comum – desenvolvido e amplamente circulado com a mediação de tecnologias digitais, que manifesta-se em diferentes versões criadas com a consciência da existência umas das outras, e cuja variabilidade resulta de processos de imitação – tais como apropriação, reinterpretação, remix ou paródia.”

 

É uma definição provisória uma vez que o termo ainda está fase dos primeiros estudos e conceituações. O escritor norte-americano Willian S. Burroughs considera o meme um vírus. Tem fundamento para tal afirmação já que o meme tem como uma das características a replicação, do conteúdo presente na linguagem.

 

  1. Características, estratégias e uso dos memes

 

Agora partimos para algumas particularidades do que considera-se um meme. Colocamos em tópicos de forma mais didática para facilitar a compreensão:

 

  • Replicação: Capacidade grande de se replicar e se multiplicar de diferentes formas dependendo do contexto;
  • Metamorfose: É comum o meme não ser o mesmo conteúdo em relação a sua origem. Porém é preciso analisar a fidelidade a ideia original, e não necessariamente o conteúdo na sua totalidade;
  • Atributos gráficos: Efeitos gráficos e fáceis de serem lidos;
  • Meios: Uso de imagens e vídeos, podendo ou não ter texto. Dependendo do meme a imagem é o texto em si;
  • Temas: Deve retratar o cotidiano ou questões da sociedade atual;
  • Plataformas: Uso de programas de edição para leigos como o Paint. Outro suporte usado para representar o meme é o GIF que traduzido significa: Formato de intercambio de gráficos. Trabalha com a cultura visual. Dito de forma simples é um formato de imagem de bits muito usado nas redes sociais, nos seus dois estilos: as imagens fixas e as imagens animadas. Por não necessitar de grande conhecimento para construir um GIF, ele se coloca como um dos meios mais eficazes para replicar um
  • Tática: É espontâneo geralmente. Dificilmente temos casos planejados. Sem contar o grotesco como marca dos memes;
  • Autores: A autoria é sempre difícil de definir devido a capacidade de replicação e mutação do

 

Em Resumo, você vê, gosta e copia, outros fazem o mesmo e assim por diante. Se adequam assim ao nosso contexto do tempo acelerado e da virtualização da vida. É sempre algo que aprendemos por outra pessoa por meio da imitação.

Diante de tudo os memes podem ser considerados como meios que produzem um capital simbólico na contemporaneidade, uma vez que tem o objetivo do consumo e a identificação de quem consome o meme que quer se promover.

O meme nada mais é que o herdeiro do bordão sem delongas. É um novo tipo de bordão recriado em um espaço diferente, tornando-se parte da cultura das mídias, usando o riso para adentrar a vida do usuário.

Segundo Raquel Recuero os memes possuem algumas dinâmicas na sua influência pelas redes sociais. Agrupamos elas abaixo de forma resumida:

 

1.Competição: A competição é prevista na teoria da evolução. Do mesmo modo os memes competem pela sua sobrevivência. A competição é a primeira influência dos memes nas redes sociais.

 

  1. Construção de Identidade: Os memes podem criar identidades. Vai depender do tipo de meme replicado pelo internauta para entendermos a interação e as relações entre os membros de determinada rede social.
  2. Cooperação: Alguns memes se relacionam com outros memes nas redes sociais de modo cooperativo.
  3. Agregação: Os memes conseguem também em determinados espaços nas redes sociais terem um efeito agregador relacionando-se com de modo interativo.
  4. Ruptura e Conflito: Contudo, os memes podem gerar ao mesmo tempo rupturas e conflitos em assuntos mais polêmicos presente nos memes. A principal consequência é o distanciamento entre os membros da rede social do conflito. As relações se rompem.[2]

 

Para a disseminação dos memes, os mesmos têm alguns auxiliadores descritos pela pesquisadora Krícia Helena Barreto. São eles:

 

  1. A) Fragmentação e diversificação no contexto cultural; B) Utilização das redes sociais; C) Modelo que permita a possibilidade de explorar nichos; D) Cultura participativa incentivando a reapropriação; E) Acesso à tecnologia para a produção e consumo. [3]

 

  1. Taxonomia dos Memes:

 

Depois de conceituarmos e apresentarmos alguns princípios e aspectos que envolve a dinâmica em torno de um meme vamos de forma sucinta descrever a taxonomia de Raquel Recuero;

 

3.1 Fidelidade do meme:

Aqui é analisada a semelhança do meme na condição de cópia com o meme original. Deve haver uma manutenção do padrão em relação ao original. Isto é, o nível de permanência das características originais. Dito de outra forma quanto menor a variação do meme original, será maior a fidelidade da cópia.

Assim temos os seguintes memes:

 

3.1.1 Replicadores: Alta fidelidade em relação a cópia original. Eles se propagam sem sofrer praticamente nenhuma modificação e se sofre alguma é quase imperceptível e caso seja percebida, não altera a estrutura da ideia inicial do meme.

3.1.2 Miméticos: Sofrem mudanças, porém mantem a sua estrutura sendo reconhecidas. A questão-chave está na personalização, mantendo a essência. Por isso mimético, permanece a sua estrutura entretanto adaptam-se ao meio virtual.

3.1.3 Metamórficos: Memes totalmente alterados e reinterpretados durante a replicação. Para Recuero: “[…] mas discutida, transformada e recombinada. O meme, neste caso, parece consistir em um estímulo à interação, como forma de propagação.” [1] Como mudam muito é difícil acompanhar sua evolução.

 

3.2 Longevidade do meme: A longevidade está atrelado a questão do tempo. Obviamente quanto maior for o tempo do meme mais chances terão de sobreviver, e consequentemente maior será a possibilidade de replicação. Sabemos contudo que os memes podem ficar muito tempo arquivados na Internet, ao mesmo tempo podem desaparecer e nunca mais serem achados de novo caso estejam a pouco tempo e suas poucas cópias também tenham sido eliminadas.

Assim pensa-se os memes em:

 

3.2.1 Persistentes: São os memes replicados por muito tempo. Não são aquele memes que explodem por um único momento e desaparecem. Porém memes persistentes desaparecem, mas retornam e começam a se replicar novamente em muitos casos.

3.2.2 Voláteis: Tem uma vida curta na sua replicação no meio virtual. Podendo ser esquecidos totalmente ou serem modificados virando um novo meme. Eles até são copiados por outras redes sociais, apenas num curto período de tempo, logo depois caindo no esquecimento. Possuem uma forte ligação com memes metamórficos, já que não necessariamente desaparecem em alguns casos, mas sim transformam-se em outros memes.

 

3.3 Fecundidade do meme: Falamos agora da quantidade e da rapidez em relação aos memes. Para Recuero a questão da rapidez não é tão importante, pois o meme pode se replicar rapidamente entretanto por muito tempo, uma vez que pode ficar guardado na Internet. O essencial é verificar o nível de propagação dos memes. A capacidade de reprodução em outras palavras.

Assim, classificamos os memes em:

 

3.3.1 Fecundos: São os memes que não são epidêmicos, mas se espalham entre grupos menores:  “Todos os memes são potencialmente fecundos e necessitam gerar descendência para sobreviver, mas têm graus diferentes de fecundidade” conforme aponta Recuero.[2] O meme replicador parece ser um dos que mais pende para ser fecundo por duas razões: quantidade e fidelidade. Do mesmo modo o meme metamórfico apresenta-se como fecundo mesmo sendo transformado mais rápido. Diferente é o caso do meme mimético, o que não elimina a chance de epidemia.

3.3.2 Epidêmicos: Tem grande fecundidade se tornando uma epidemia. São oriundos de modismos e formas de comportamentos. É difícil precisar qual a causa da epidemia. É observado em alguns casos a existência paralelas de variações do meme com seu original devido a epidemia. Para Recuero o sucesso pode ser o motivo desses memes se tornaram tão imitados.

 

3.4 Alcance dos memes: Essa última forma é adicionada por Recuero. Ela não está presente na classificação de Richard Dawkins no capítulo “Memes: Os Novos Replicadores” no seu livro “O Gene Egoísta” e sim as três primeiras. O alcance abarca o movimento do meme dentro da rede e o que Recuero chama de nós e quais deles são mais atingidos pelos memes. Busca identificar a distância na interação entre os internautas nas redes sociais e sua interação.

Desta forma, temos os memes:

 

3.4.1 Globais: Memes com um grande alcance, não fundamentalmente fecundos. Por serem distantes na sua viagem pelo espaço virtual tem os laços fracos como marca entre seus membros. Estão ligados com os memes epidêmicos ao se espalharem por várias redes sociais e outros espaços virtuais, contudo sem ser necessariamente fecundos. Do mesmo modo ligam-se ao memes replicadores devido à baixa mudança que sofrem no percurso da replicação. Não provocam muita interação social.

3.4.2 Locais: São aqueles memes mais restritos a determinados grupos de interesse. Aqui temos laços fortes na interação dos membros desses grupos. Há mais frequência de discussão entre os membros onde são propagados esses memes. Retomando os nós de Recuero os memes agora locais estão mais localizados e assim em poucos nós da rede, com chance de se tornarem globais mais à frente. Eles se relacionam com os memes metamórficos e miméticos antes de tudo. Com mais interação a chance de transformação do meme parcialmente ou totalmente aumenta consideravelmente.

 

Usamos a tabela de Recuero abaixo para sintetizar a sua proposta:

Fonte: RECUERO, Raquel. Memes em Weblogs: Proposta de uma Taxonomia. In: XV Compós, 2006, Bauru. Anais da XV Compós, 2006.

 

  1. Análise de dois memes:

 

Partimos agora para a análise de dois memes a partir da taxonomia de Recuero. Por conta do espaço limitado vamos resumir a avaliação em tabelas.

4.1 Meme do Menino do Raça Negra e o “projeto”:

IMAGEM 1: Meme mimético a partir do original mudou parcialmente a estrutura mantendo a ideia original para inserir um problema dos jovens estudantes de arquitetura o detalhamento do projeto. Fonte: Arquitetura da depressão.

 

Classificação do Meme “Menino do Raça Negra e o “projeto”

 

4.2 Vídeo: Meme do “Casos de Família”

IMAGEM 2: Imagem retirado do Youtube mostrando o meme “Casos de Família” muito interessante para nossa análise. Ele possui muitas facetas. Podemos resumir em epidêmico, replicador, persistente e global. Mesmo assim consegue ser mimético e profundamente fecundo.

 

 

  1. Referência bibliográficas

 

BARRETO, Krícia Helena. Os Memes e as Interações Sociais na Internet: uma Interface entre Práticas Rituais e Estudos de Face. 2015. 147 f. Tese (Doutorado em Linguística) – Universidade Federal de Juiz de Fora.

 

CARACCIOLO, Paola. Maira. Gomes; PENNER, Tomaz Affonso; FILHO, Otacílio Amaral. Dos bordões aos memes: Uma análise sobre o papel da mídia na construção e apropriação de novas formas de linguagem. In: XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2011, Recife. Anais do XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2011.

 

DAWKINS, Richard. MEMES: OS NOVOS REPLICADORES. In: O Gene Egoísta. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2001. Cap. 11, p. 121-128;

 

FONTANELLA, Fernando. O que é um meme na Internet? Proposta para uma problemática da memesfera. Trabalho apresentado no III Simpósio Nacional da ABCiber, São Paulo, 2009.

 

GONZATTO, Rodrigo Freese. GIF ART (gif arte): tipos, estilos e temáticas de gif. Disponível em: http://www.gonzatto.com/gif-arte/. Acesso em: 27 jun. 2017.

 

JÚNIOR, Jaime de Souza. “#In Brazilian Portuguese”, Memes e Fenômenos: Linguística e as Sugestões para Reconhecer e Investigar Eventos Digitais*. Anais do Encontro Virtual de Documentação em Software Livre e Congresso Internacional de Linguagem e Tecnologia Online. v. 4, n. 1, p. 1-7, 2015.

 

RECUERO, Raquel. Memes em Weblogs: Proposta de uma Taxonomia. In: XV Compós, 2006, Bauru. Anais da XV Compós, 2006.

_____________. Memes em weblogs: proposta de uma taxonomia. Revista FAMECOS, Porto Alegre, n. 32, p. 23-31, abril de 2007.

SILVA, Guilherme de Léo. Arte e a Cultura dos Memes. Revista Polêm!ca, Rio de Janeiro, v. 11, n. 1 , p. 130-134, janeiro/março 2012.

 

SOUSA, Ana Caroline Luiza. Análise do discurso aplicada em charges e cartuns políticos. Crátilo: Revista de Estudos Linguísticos e Literários. Patos de Minas: UNIPAM, (1): 39-48, ano 1, 2008.

[1] LUPINACCI, Amaral Ludmila. Até o Travolta ficou confuso: sobre a imprecisão conceitual dos “memes de internet” (e o que GIFs têm a ver com isso). Culturas Midiáticas (Online), v. 10, n. 1, p. 50-66, jan-jun/2017. p. 60.

[2] RECUERO, 2007, p. 4.

[3] RECUERO, 2006, p. 4

[4] RECUERO, Raquel. Memes em Weblogs: Proposta de uma Taxonomia. In: XV Compós, 2006, Bauru. Anais da XV Compós, 2006.

[5] Cf. BARRETO, Krícia Helena. Os Memes e as Interações Sociais na Internet: uma Interface entre Práticas Rituais e Estudos de Face. 2015. 147 f. Tese (Doutorado em Linguística) – Universidade Federal de Juiz de Fora. p. 34-35.