O 13º Batalhão de Caçadores na Revolução de 1932

por Rafael José Nogueira - 09 de junho de 2017

  1. Introdução

Poucos joinvilenses sabem de como o atual 62º Batalhão de Infantaria, que no passado tinha o nome de 13º B.C foi ativo e participou de vários movimentos no início da república. Quem olha as movimentações rotineiras do batalhão pode ser induzido a pensar que a unidade militar teve poucas missões relevante ao longo da sua história. A história mostra que foi bem ao contrário. Confira!

 

  1. Antecedentes

 

Com a consolidação do movimento de outubro de 1930 com participação direta do 13º B.C o governo de Getúlio Vargas precisava dividir o poder com seus aliados. Entre eles os tenentes que deram apoio militar para o movimento. Vargas decidiu então nomear interventores nos Estados brasileiros para alocar os lideres tenentistas. São Paulo por sua vez ficava descontente e irritado a cada nomeação de Vargas, pois os nomes indicados nunca eram naturais de São Paulo, atendiam aos seus interesses ou ainda se não eram militares tinham dificuldades para obter autonomia em suas administrações por conta da pressão dos tenentes. Soma-se a isso a posição centralizadora de Vargas que incomodava ainda mais São Paulo. Eles consideravam essa postura, uma forma de ditadura e desrespeito a soberania de São Paulo. A questão era reforçada em 1932 pela postergação de eleições que Vargas havia prometida desde 1930. Os fazendeiros paulistas que tiveram grande parte do seu poder coronelístico com o movimento de 1930 também faziam oposição ao novo governo.

Com o passar dos meses em 1932 estudantes universitários, comerciantes e profissionais liberais foram se aglutinando na composição da oposição de São Paulo contra Getúlio Vargas. Outro ponto que estava na pauta de reinvindicações dos paulistas era a construção de uma nova constituição. Depois de interventores não-paulistas em março de 1932 assume o paulista Pedro Manuel de Toledo como medida para acalmar os ânimos. Já era tarde, pois a paciência de São Paulo tinha chegado ao limite ao ponto da radicalização de propor um combate armado. Como foi dito os interventores encontravam dificuldades para governar de forma autônoma. De um lado vinha interferência de Vargas, do outro dos tenentes.

Em maio explode vários comícios por São Paulo e em um deles no dia 23 de maio ocorre a morte de quatro estudantes: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. O estudante Orlando de Oliveira Alvarenga foi alvejado nesse dia também e veio a falecer meses depois. É o estopim para um conflito armado. É criado dessa forma o MMDC (Conforme pode ser visto na Imagem A) organização clandestina com as iniciais dos estudantes mortos. Junta-se com outros movimentos políticos para organizar uma revolta contra o governo federal. Em 9 de Julho Vargas convoca a assembleia constituinte e dá andamento para uma nova constituição atendendo de uma das principais exigências de São Paulo. A essa altura não adiantava mais, já que tudo estava preparado. No mesmo dia explode a chamada Revolução Constitucionalista de 1932.

IMAGEM A: Cartaz da propaganda paulista convocando os cidadãos de São Paulo para a luta. Data: 31 de Dezembro de 1931. Fonte: CPDOC.

  1. Santa Catarina e o 13º B.C no Movimento de 1932

 

Em Florianópolis o movimento não teve muita repercussão gerando poucas adesões. Contudo segundo Carlos Humberto Correa no interior de Santa Catarina: “[…] políticos ligados ao antigo regime derrubado em outubro de 1930 infiltraram-se em vários municípios e tentaram sublevar as forças da Polícia Militar e o povo”. (CORRÊA, 1984, p. 120). Aconteceram inúmeras prisões de políticos e militares que se rebelaram nas cidades catarinenses. Até mesmo Rupp Junior que manifestou apoio a Vargas foi preso para explicações.

Em Janeiro de 1932 o 13º BC aparece no jornal A Notícia sendo noticiado que ele estava de partida para Itajaí para “[…] treinar os seus elementos na resistência em marcha” (JORNAL A NOTÍCIA, 14 de Janeiro de 1932) Já em fevereiro o batalhão parte em marcha de resistência para Itajaí sob o comando do Major Antenor Taulois de Mesquita. Nos meses seguintes as notícias de jornal cessam em relação ao 13º BC. Só encontramos o batalhão citado em 14 de Junho perto de iniciar o movimento.

Nessa notícia temos a informação que o 13º BC aquartelado em Joinville ganhava um novo comandante: o tenente-coronel Boanerges Lopes de Souza. O militar em questão foi um dos comandados por Waldomiro Lima que organizou a resistência contra os revolucionários em São Paulo. O general Waldomiro Lima organizou três destacamentos e nomeou ele com os nomes de seus comandados, entre eles o próprio Boanerges Lopes de Souza. Esses destacamentos eram parte da Frente do Sul ou do Paraná, criadas para combater os revolucionários.

O batalhão joinvilense embarcou rumo ao Paraná cerca de um mês depois entre os dias 10 e 12 de julho. No dia 16 de Julho ao que parece se movimentou via trem entre Thomazina e Jaguariaíva, cidades paranaenses perto da divisa com São Paulo. Em número de 27 de julho é descrito que o 13º BC encontrava-se em Faxina atual Itapeva no Estado de São Paulo.

Logo depois em 9 de Agosto em entrevista na sede do A Notícia em Joinville o tenente do 13º BC Ladislau Fischer retornando de São Paulo afirmou que o batalhão joinvilense estava incorporado ao destacamento Boanerges Lopes de Souza. Isso quer dizer que o 13º BC diferente de 1930 quando foi rebelde, desta vez atuou como tropa legalista em São Paulo assim como tinha sido em 1924. Ainda buscou acabar com qualquer rumor de baixas e feridos e que retornaria logo ao campo de batalha. No começo de Setembro o 13º BC estabelece parada em Capão Bonito no Estado de São Paulo. A região pode ser melhor vista no mapa da imagem b.

No dia 2 de outubro é assinado a rendição do exército constitucionalista que vinha desde setembro exausto e com recursos cada vez mais escassos. Como as cidades do interior paulista estavam sendo ocupadas pelas tropas getulistas a tomada da capital paulista era cada vez mais provável. Deste modo não restou se não render-se. Dois dias depois em Joinville ocorre uma manifestação para comemorar a vitória.

Já em 6 de outubro o jornal A Notícia transcreve telegrama do Major Taulois de Mesquita de Capão Bonito. Nele é dito que o 13º BC recebeu determinação para ser tropa de ocupação em Itapetininga perto de Capão Bonito. É mostrado também o telegrama do capitão Irapuan Xavier Leal com o mesmo conteúdo acrescentando que após um período o 13º BC iria retornar a Joinville. Em 12 de Outubro o jornal A Notícia divulga informações dizendo que o 13º B.C está dessa vez na capital paulista como tropa de ocupação.

Abaixo uma pequena tabela de baixas dos militares do 13º Batalhão de Caçadores:

Nelson Machado enviado especial dos jornais, O Radical do Rio de Janeiro e o Correio de Joinville da nossa cidade ao front relata um pouco de como foi a missão do 13º BC em São Paulo. Ele destaca o combate de Ribeirão Claro na divisa entre Paraná e São Paulo, embora não detalhe muito. É através dos fatos narradas da batalha do Rio das Almas que separa Capão Bonito e Ribeirão Grande que podemos saber que o tenente ajudante Eduardo Régis Vieira foi ferido além do sargento Moacir e do voluntário Noé Nerry. O pesquisador Afrânio Franco de Oliveira Mello comenta sobre os combates na região que: “A extensão dos rios Paranapanema e das Almas foi onde houve as piores batalhas” (SITE G1, 9 de Julho de 1932). Conforme Nelson Machado narra o 13º BC juntamente com o 13º Regimento de Infantaria forma as primeiras tropas que fizeram a travessia do Rio Paranapanema, não pararam e avançaram na travessia sobre os rios Turvo e dos Cristais. Como pode-se ver na tabela houve combate nas margens do segundo rio com dois soldados feridos do 13º B.C. Nelson Machado diz que foram violentos os combates. Também traz a morte do Cabo Manoel Vieira do 13º B.C sem dizer muito de como ocorreu a morte a não ser que foi em serviço. Teria sido a única baixa do 13º B.C durante o conflito.

O jornal A Notícia continua sua reportagem especial com o título “Impressões no Front” a partir dos relatos de Nelson Machado Na edição de 26 de outubro fala sobre os acontecimentos as margens do rio Paranapanema. Nelson Machado declara que 13º B.C ficou a direita do rio Paranapanema quando arrebentou o tiroteio com os rebeldes: “A Companhia de metralhadoras do 13º B.C, comandada pelo bravo tenente Numa de Oliveira, despeja inúmeros projeteis, protegendo o desempenho o desdobramento do nosso flanco direito. O inimigo responde o ataque e o canhoneio generaliza-se em todas as linhas de combate” (A Notícia, 26 de outubro de 1932).

Todos esses combates ocorreram provavelmente entre agosto e setembro de 1932. As fontes encontradas até o momento não dão muita exatidão de datas, apenas algumas referências dos meses. É certo que foram violentos e intensos.

IMAGEM B: Mapa com a região dos combates do 13º BC de Joinville. Fonte: Atlas do Brasil – CPDOC.

  1. Consideração Finais:

Mais uma vez conseguimos ver como a atuação do 13º BC foi ativa relevante no movimento de 1932. Sua história é rica e merece ser contada. Apresentei alguns fatos diante das fontes disponíveis. O 13º BC está definitivamente inscrito na memória nacional.

 

  1. Referências:

 

CORRÊA, Carlos Humberto. Um estado entre duas Repúblicas: a Revolução de 30 e a política catarinense até 35. Florianópolis: Editora da UFSC; Assembleia legislativa de Santa Catarina, 1984.

 

SITE G1. Região de Itapetininga, SP, teve forte influência na Revolução de 1932. Disponível em: http://g1.globo.com/sao-paulo/itapetininga-regiao/noticia/2012/07/regiao-de-itapetininga-sp-teve-forte-influencia-na-revolucao-de-1932.html Acesso em: 8 jun. 2017.

 

 

Jornais Consultados:

 

A NOTÍCIA. Joinville, Janeiro a outubro de 1932. Hemeroteca da Biblioteca Nacional

REPÚBLICA. Santa Catarina. Junho 1932. Hemeroteca digital da Biblioteca nacional.

O JORNAL. Rio de Janeiro. Julho de 1932. Hemeroteca digital da Biblioteca nacional.