Índios em Joinville no Século XIX

por Rafael José Nogueira - 28 de maio de 2017

 

 

  1. Introdução

Depois dos negros os índios são sem dúvida a etnia que mais sofre com o esquecimento na história oficial de Joinville. O número reduzido de fontes frente as outras etnias, não indica como alguns querem acreditar que não houve sua presença em nossa cidade. O silêncio é fundante. É no silêncio de uma etnia que as relações de poder aparecem. O silencia de um grupo submisso. Silêncio é senão poder. O silêncio traz um significado que pode incomodar, como incomoda o autor deste texto. Uma etnia estar em silêncio significa algo. Significa que a sua história não merece ser contada e muitos menos replicada para as gerações posteriores. Os vencedores sempre escrevem o que lhes convém. Não se enganemos pois os vencedores são temporários como a história sempre mostrou. O silêncio é por que não falar por outras vias. Vamos tentar com as poucas fontes que dispomos apresentar um pouco dos indígenas em Joinville no século XIX.

 

  1. Indígenas visto pelos jornais

 

A primeira fonte de uma série do jornal Gazeta de Joinville fala da presença indígena nos primórdios da Colônia Dona Francisca de questões econômicas como alfândegas, acaba deixando a vista sua visão sobre os indígenas:

Tentaremos mais tarde avaliar a importância do prejuízo que nos tem levado e que nos traz ainda a supressão da alfandega de São Francisco. Ao concluir tomamos liberdade de pedir ao Governo Imperial de poupar tanto que se pode as forças e o labor dos moradores desta parte da província de St. Catarina onde há poucos escravos e onde exista a Colônia de Dona Francisca cujos habitantes souberam, sem escravatura, com pouca despesa para o Estado transformar em menos de trinta anos, o mato virgem onde vagavam os índios selvagens, em uma localidade já sofrivelmente habitável para quem sabe prescindir das vantagens e prazeres peculiares aos grandes centros de população. (GAZETA DE JOINVILLE, 10 de Novembro de 1880)

IMAGEM A: Crianças índigenas no centro de Joinville. Fonte: Jornal O Vizinho.

O jornal propriedade do Clube Joinville, espaço com presença fortes das elites luso-brasileiras, buscam afirmar o construto do branco pobre e trabalho que segundo o jornal sem se valer de negros escravizados fez de uma mata virgem a Joinville em progresso naquele momento. Já foi desmentido por mim em outra oportunidade aqui no site essa questão no texto “A presença dos negros escravos em Joinville no século XIX”. É interessante entretanto falar do termo atribuído aos índios: selvagens. Estávamos no período imperial e a ordem do dia era clara o Estado imperial deveria civilizar os selvagens e integra-los a construção da nação por meio do seu trabalho. É só por ele que o incivilizado indígena iria se integrar a sociedade brasileira. Isso fica mais claro no segundo recorte de fevereiro de 1881 quando notícia sobre a assembleia legislativa provincial e ao descrever a eleição das comissões nos apresenta uma em especial bem curiosa: “Negócios eclesiásticos, catequese, civilização dos índios e divisão eclesiástica” (GAZETA DE JOINVILLE, 16 de Fevereiro de 1881). Fica claro cruzando os dois trechos do entrelaçamento entre Igreja Católica e tentativa de civilizar os ditos “selvagens”. Como religião oficial do Estado imperial cabia a igreja o dever de trazer os índios para o seio da sociedade avançada e civilizada usando a catequese e “salvando” essas almas do pecado. Soma-se a catequese, o intercasamento, o trabalho assalariado e as mudanças de seus hábitos cotidianos como métodos para trazer ele para a cultura “superior” branca. Na prática o trabalho assalariado era o único que não usado, pois com a lei de terras de 1850 os chamados índios destribilizados perdem suas terras que passam para outros proprietários não-índios.

Não resta outra saída senão migrar para a parte urbana das cidades, sendo presos e escravizados para trabalhos domésticos. A prisão era só uma desculpa para escravizar do que de fato punir. Expulsão de suas terras, migração forçada para sobreviver, prisão e escravização ajudam a entender os choques com a etnia branca. Na próxima notícia do Gazeta de Joinville de 1882 temos um pouco da visão que guiava as elites portuguesas sobre o que é o indígena e depois um caso que ilustra isso:

Continuam os índios botocudos a ameaçar as vidas e propriedades dos habitantes desta cidade. Si até esta data não temos a deplorar morte alguma, devemos isso só a vigilância dos colonos, que andam armados dia e noite, para se defenderem daquelas feras que atacam de emboscada e de supresa, [ilegível] as pobres criancinhas de berço. ( GAZETA DE JOINVILLE, 15 de Fevereiro de 1882).

O índio é visto sempre em estado de suspeita. É o bárbaro que vai atacar a propriedade e colocar em risco a vida de todos. Só não é pior segundo o jornal devido a sempre vigilância dos colonos das “feras” que atacam sempre de surpresa, não perdoando nem as crianças. Fora o discurso exagerado como já apontamos anteriormente existe alguns motivos para este conflito. É importante rever esta posição que o índio é colocado como sempre a besta selvagem que ataca e nunca é atacada. O maniqueísmo é uma estratégia do texto jornalístico para manter a visão de que os índios precisam ser capturados e assimilados a cultura do bem: a branca. A seguir o jornal conta o caso da esposa de Joaquim José Pereira que ao avistar pela manhã um índio se aproximando de sua filha que brincava no terreno de sua casa, foi rapidamente para dentro de casa, buscou uma espingarda e disparou contra o peito do indígena e este evadiu-se para o mato. Vizinhos da família se reuniram para achar o índio ferido, mas não tiveram êxito. Por fim é relatado que o Presidente da Província mandou uma escolta para adentrar os matagais e espantar os índios. Este caso mostra a tensão que marcava as relações sociais entre brancos e indígenas. O índio provavelmente não tinha a intenção de fazer algum mal para a família Pereira. Contudo na dúvida a esposa de Joaquim alveja com vários tiros o indígena sem sequer saber de fato sua intenção ao se aproximar de sua casa. Fica nítido que a questão indígena estava longe de ser resolvida.

Dias antes outro caso envolvendo o conhecido João Gomes de Oliveira é também relatado pelo Gazeta de Joinville:

Ontem sairam os indigenas da tribu dos botocudos na nova fazenda do sr. João Gomes de Oliveira, situada somente 17 quilometros distantes desta cidade de Joinville, na margem do Cubatão Grande e proximo à beira da Estrada Dona Francisca. Ai fizeram grandes estragos, roubando tudo o que acharam; felizmente não mataram ninguém, achando-se os trabalhadores ausentes na ocasião da saida, sendo um dia de domingo. Consta-nos que a autoridade policial já telegrafou ao sr. Presidente da Província comunicando o fato e pedindo socorros. (GAZETA DE JOINVILLE, 8 de Fevereiro de 1882).

Aqui a acusação de um saque. Se no caso anterior sequer o indígena cometeu algum ato criminoso, agora um grupo teria saqueado a fazenda de João Gomes de Oliveira. O clima é de medo e incerteza sobre o que pode acontecer. Meses depois a Gazeta de Joinville em Novembro publica uma reclamação de Guilherme Engelke sobre as despesas para afastar os índios “[…] que estavam ameaçando os colonos na raiz da serra de Joinville” (GAZETA DE JOINVILLE, 8 de Novembro de 1882). Ele pede restituição pelo dinheiro gasto. Isso indica que havia um esforço para combater os índios na cidade. Tempos depois em 1887 o jornal Folha Livre conta que índios apareceram a noite na fazenda de João Gomes de Oliveira, entretanto não ocorrendo já que fugiram ao serem vistos.

Trouxe algumas fontes de jornal, para tentar reconstruir um pouco da presença indígena em Joinville no século XIX. Vimos que o ideal civilizatório percorria o pensamento da sociedade brasileira e em nossa cidade não era diferente.

  1. Referências

 

AZZARITI, Mônica. Silêncio, silenciamento e tortura: violência e produção de sentidos. 2015. (Apresentação de Trabalho/Comunicação).

 

SUCHANEK, Marcia Gomes de Oliveira. Povos Indígenas no Brasil: De Escravos à Tutelados. Uma Difícil Reconquista da Liberdade. Confluências, v. 12, p. 240-274, 2012.

 

Jornais Consultados:

 

GAZETA DE JOINVILLE. Joinville, 1880 a 1882. Hemeroteca digital da Biblioteca nacional;

FOLHA LIVRE. Joinville, Novembro de 1887. Hemeroteca digital da Biblioteca nacional.

IMAGEM B: Índios Caingangues no terminal Rodoviário de Joinville. Fonte: Jornal A Notícia.