Do Homem-caranguejo ao Menino Caranguejo

por Rafael José Nogueira - 14 de maio de 2017

Josué de Castro                                                             

Nas décadas de 40 e 50, Josué de Castro inicia seus estudos sobre a fome no Brasil que iriam leva-lo ao reconhecimento nacional e mundial, até sua morte em 1973. Em suas obras é frequente a figura do Mangue e a partir de sua observação dos manguezais de Recife, nota semelhanças entre os homens que vivem à beira do mangue e os caranguejos. O homem do Recife na década de 1930 seja pelo latifúndio ou pela seca passa a habitar os mangues e presos a ele acabam se confundido com os próprios Caranguejos e se tornando muito parecido com ele, ao ponto dos Caranguejos serem parte constituinte do homem segundo Josué de Castro. É em outras palavras o Caranguejo pernambucano, que vai começar a ser reconhecido.

IMAGEM A: Grafite retratando Josué de Castro. Fonte: Obvious.

Chico Science e o Mangue Beat

Na década de 90, a cena cultural de Recife estava respirando por aparelhos como Fred Zero 4 descreve no manifesto intitulado Caranguejos com Cérebro: “Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! ”. Sem falar que Recife ostentava ainda o título de quarta pior cidade do mundo e a liderança em desemprego no país. Nesse cenário nasce o movimento musical conhecido como MangueBeat que mistura ritmos regionais, como o maracatu, com rock, hip hop, funk rock e música eletrônica. A “Parabólica na Lama” é a corporificação dessa mistura. Chico Science foi muito influenciado por Josué de Castro. O artista recupera termos locais para designar esses homens-caranguejos presentes na obra de Castro, como o “chié”, caranguejo pequeno, mas que no contexto popular, toma novo significado, o de menino pobre, de rua; “aratu”, uma espécie de caranguejo com grande habilidade para subir em árvores do mangue.  E claro traz a figura do homem-caranguejo na música Antene-se: “Recife, cidade do mangue/Incrustada na lama dos manguezais/Onde estão os homens caranguejos” No verso da música Da Lama ao Caos vemos a presença mais efetiva de Josué de Castro: “Oh, Josué, eu nunca vi tamanha desgraça” . Recupera-se também neste trecho da canção toda a obra de Josué de Castro – lida por Science e que serviu de base para a formação do movimento manguebeat. Science ainda nos apresenta o Homem Gabiru. O homem gabiru pernambucano é a imagem exata do que a pobreza nordestina produz – uma população de nanicos, de altura média de 1,35 metros, resultado de má alimentação e casos extremos de fome: “E um caranguejo andando pro sul / Saiu do mangue, virou gabiru”. O homem-caranguejo sai do mangue e vira o Gabiru, o “rato” gigante que vive no lixo da cidade grande, a única coisa que lhe restou. Dito de outra forma ele é engolido pela cultura urbana.

IMAGEM B: Representação da Parabólica na Lama, que metaforizava a intenção de conectar os mangues de Recife com o mundo. Fonte: Blog Na Batida do Mangue

Joinville e os migrantes

O período entre 1960 e 1980 é conhecido pela forte migração de cidades catarinenses impulsionado pelas fortes enchentes de 1974 e as de 1983/1984  e ofertas de emprego na indústria. Mas, sobretudo a maior marca é a migração do interior do Paraná para Joinville seduzidos pelas empresas que precisavam de mão-de-obra e a vontade de ter uma vida melhor numa cidade que cada vez mais se fazia grande. Quando as famílias aqui chegaram viram que a situação era bem diferente, conforme exemplificado por Josué de Castro na sua famosa crônica sobre a vinda para o sul do homem-caranguejo intitulado Ciclo do Caranguejo: “Não havia dúvida que a cidade era bonita, com tanto palácio e as ruas fervilhando de automóveis. Mas a vida do operário, apertada como sempre. Muita coisa pros olhos, pouca coisa pra barriga. […] Começou o arrocho. Só havia uma maneira de desapertar: era cair no mangue.” E completa resumindo a vantagem de morar no mangue: “O mangue é um camaradão. Dá tudo, casa e comida: mocambo e caranguejo.” Muitos desses indivíduos ocuparam manguezais em Joinville de forma ilegal e desordenada, prejudicando o meio ambiente e a si mesmos contraindo doenças. Em resumo existiam duas cidades: uma Joinville das flores e uma Joinville dos mangues. Eram essas pessoas os caranguejo-com-as-patas-enterradas-na-lama que presos no mangue buscavam atender suas necessidades alimentares básicas. Enquanto os caranguejos se enterravam na lama, essas pessoas se afundavam na miséria e na pobreza.

IMAGEM C: Fotos das áreas de Mangue no Comasa. Fonte: Prefeitura Municipal de Joinville

 

Menino-Caranguejo

Em 1997 se formava em Desenho Industrial pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo José Francisco Peligrino Xavier, o CHICOLAM. O título de seu trabalho de Conclusão de Curso foi: “O menino Caranguejo – História em Quadrinhos”. No ano de 2003 muda-se para Joinville para ser professor na Univille, e traz junto o seu Menino Caranguejo, sendo publicado na cidade pela primeira vez a HQ do personagem em 2007, e desde 2008 diariamente. Agora além do Menino Caranguejo, temos a turma do Mangue. Logo depois em 2010 ele funda o Instituto Caranguejo de Educação Ambiental. Em entrevista ao site Socialcomics CHICOLAM fala da inspiração ao criar o personagem: “Conceituei o trabalho nos catadores de caranguejo com inspiração do som manguebeat de Chico Science.” Portanto o Manguebeat mostra que sua parabólica na lama mandou vibrações para todo o Brasil, chegando em São Paulo aos ouvidos de CHICOLAM e depois até Joinville, que curiosamente tem o mangue como uma das características marcantes da sua paisagem.  Na entrevista o autor ainda resume a história do menino Caranguejo, que era um catador de caranguejos que além de ser seu alimento era sua fonte de renda, até que ao sofrer um acidente, é salvo por caranguejos que levam ele a Garra que lhe dá poderes para proteger os mangues depois de preservar sua vida. Pelo perfil do personagem ele seria dentro do Manguebeat o chié um caranguejo pequeno, transformado pelo movimento na cultura popular com o novo significado, de menino pobre, que aparenta ser o caso do menino Caranguejo.

IMAGEM D: CHICOLAM e o Menino Caranguejo ao fundo. Fonte: Revista Unit