Revolução de 1930: batalhas em Joinville

por Rafael José Nogueira - 29 de abril de 2017

Revolução de 1930: batalhas no centro da cidade

 

  1. Batalhas no centro de Joinville? Será? Confira!

 

  1. Combates

Era 10 de Outubro de 1930, a revolução já tinha estourado e o 13º B.C de Joinville já havia também aderido ao movimento no dia 4 de Outubro em Porto União. Estava neste dia 10 retomando a cidade do destacamento Noel, tropa legalista que tomou a cidade nos dias 8 e 9 de Outubro. Houveram choques com a volta do 13º B.C e alguns combates. Alguns em especial chamaram a atenção por ser no coração da cidade, isto é, no centro, relatada por fontes. Vamos a eles.

O capitão Caldas Braga adentra em Joinville no dia 10 pela manhã, mais precisamente ás 7 horas e se encontra com o empresário e fundador do jornal A NOTICIA Aurino Soares na estação ferroviária. Por sua vez Aurino Soares trouxe um telegrama de Oswaldo Aranha delegando a Caldas Braga a missão de “reconhecer a entrada na cidade e estabelecer a respectiva ligação com as forças desembarcadas” (JORNAL ANOTICIA, 4 de Outubro de 1931). Depois disso tomou o quartel onde estavam toda a oficialidade da Marinha e o 2º comandante de destacamento tenente Paulino Martins comandante do 13º B.C:

Ao transpor o limiar, toda a oficialidade se ergueu, perfilando-se numa continência respeitosa, declarando ter sido a Companhia de Marinha vítima de uma traição ignóbil, motivo porque se consideram prisioneiros. Escuto-os o capitão Caldas Braga com o acatamento próprio de um verdadeiro soldado, cientificando-os de que seriam garantidos e respeitados dentro dos preceitos das leis de guerra, apertando, a seguir a mão de cada um deles. Seguidamente ordenou que fosse içado o Pavilhão Vermelho, ao lado da Bandeira Nacional, cerimônia tocante que se efetuou no meio de grande entusiasmo cívico. (JORNAL ANOTICIA, 4 de Outubro de 1931)

Como podemos ver a tomada do quartel (Conforme Imagem A) foi tranquila e por meio do diálogo, sem tensões. Terminada o ato no batalhão, Caldas Braga, foi para a prefeitura (na rua do Príncipe) prender o capitão da força pública Trogillo Antônio de Mello (este já havia se envolvido em um combate na “Baumer” na região do Vila Nova entre as 23 horas do dia 9 e 1 e 30 da manhã do dia 10, resultando em 8 feridos e dentre estes 3 vieram a falecer) e também incumbiu Aurino Soares de tomar o prédio dos correios. Aqui começa um combate, pois Caldas Braga colocou à disposição de Aurino Soares: […] o tenente da força pública Augusto Barata, que momentos antes havia aderido ao movimento […]” (JORNAL ANOTICIA, 4 de Outubro de 1931). Ao que consta Mello ficou detido no quartel do 13º B.C até ser mandando para Florianópolis.

IMAGEM A: Foto que parece ser no quartel do 13º B.C em Joinville. Na imagem podemos ver o Capitão Manoel Caldas Braga que comandou a tomada da cidade e do quartel e o oficial da Força Pública Augusto já rendido aos revolucionário, possivelmente depois do tiroteio enquanto negociava sua rendição. Data: 10 de Outubro de 1930. Fonte: Arquivo Histórico de Joinville.

  1. Outros embates

Neste momento, soldados revolucionários vinham em direção ao centro para chegar na prefeitura, chegando até a frente do Banco do Brasil, próximo à prefeitura, com uma multidão, são surpreendidos por um caminhão vindo da rua do Príncipe que pertencia ao Sr. Schmaltz que trazia soldados da força pública do lado legalista, entre eles um conhecido como “baiano” que usou a caixa de correio da prefeitura como escudo e fez disparos. O jornal Correio de Joinville de 15 de Outubro complementa sobre o combate: “Quando o tenente Barata da Força pública do Estado, se entregava a guarda avançada revolucionária, estacionada defronte a alfaiataria Torrens, um soldado de polícia fez fogo sobre a multidão de pessoas que permaneciam na rua, indo as projetis alojar-se na parede do Clube Joinville. ” (Correio de Joinville, 15 de Outubro de 1930). Este soldado era provavelmente o tal “Bahiano” que fez disparos contra as pessoas na rua, vindas com os soldados revolucionários se concentrar no centro da cidade. O Clube Joinville e Alfaiataria Torrens citados como no jornal, confirmam que a tropa legalista da força pública realmente veio da rua do Príncipe. Fora a parede do então Clube Joinville ficar tomado de balas, nenhum incidente grave ocorreu.

O Sargento Baltazar que era instrutor de um tiro de guerra, vendo o tiroteio na rua do Príncipe, vai em direção à rua Jerônimo Coelho e atira contra a prefeitura, fazendo o soldado “Bahiano” bater em retirada até o quartel do Fórum, se vestindo como um civil e fugindo.

Como se não bastasse tivemos outro conflito perto dessa região. Vinha na rua Visconde de Taunay uma tropa de patrulha do 13º B.C, no mesmo momento que regressavam do chamado “Baumer” na região do Bairro Vila Nova, soldados legalistas. O encontro ocorreu segundo Lilly Boehm Grünsch em entrevista ao jornal ANOTICIA de 1 de Março de 1998 “[…] no trecho inicial da rua João Colin, entre a 15 de Novembro e a Nove de Março, e que já era chamado de rua Cruzeiro. ” (ANOTICIA, 1 de Março de 1998). Os legalistas foram ordenados a parar, porém responderam atirando, matando um soldado do 13º B.C, o reservista Fritz Beilke e Max Brodebeck que não se sabe ao certo se era um reservista ou apenas algum civil curioso. Lilly Boehm Grünsch ainda conta que “Na época o 13 º Batalhão de Caçadores veio da rua Visconde de Taunay e o comandante disse: salve-se quem puder se salvar. ” (ANOTICIA, 1 de Março de 1998).

Sobre a questão vale a pena analisar o relato do jornal Anoticia do dia 15 de outubro, que versa sobre o reservista Fritz Beilke, um dos mortos:

O reservista Fritz Beilke depois de abandonar a caserna e ao defrontar a casa do Sr. Otto Boehm, á rua Cruzeiro, em demanda do seu lar, viu surgir á sua frente, em desabalada carreira, o “caminhão da morte”, ocupado por navais que pareciam, em vez de homens, feras famintas e loucas, espalhando com as suas armas o terror por toda parte. Fritz Beilke, já ferido no tornozelo, estendido ao chão, sem poder mover-se, foi visto por um dos navais sedento de sangue, rugindo como um leão, alma empedernida sem se comover ante os gritos lancinantes de misericórdia daquele infeliz, que se contorcia em dores. O Naval olha para a carabina e a vê descarregada, abre o ferrolho da arma e introduz nela um novo pente de cartuchos e com o cano da mesma bem rente ao coração do reservista joinvilense brada: Ai tens bandido. Dispara a arma por três vezes contra o peito do infeliz rapaz, que morreu instantaneamente. (ANOTICIA, 15 de Outubro de 1930).

Tirando o exagero da linguagem metafórica e dramática do jornal temos um importante relato de como foram os embates entre as duas tropas. A dinâmica das movimentações e dos tiroteios era de guerra.

  1. A famosa batalha do Mercado Municipal

Por fim, vamos falar um pouco do combate do mercado municipal. Dentre os combates na cidade o mais intenso entre legalistas e revolucionários foi este. Uma guarda avançada do 13º BC quando entrou na cidade entrincheirou-se nessa área para render um grupo de fuzileiros navais. Enquanto estava sendo negociada a rendição o comandante das forças navais teria disparado contra o sargento Moyses um dos comandantes das tropas revolucionárias, e este por sua vez teria dado a autorização para abrir fogo: “Tirando dos coldres a “Parabellum”, o sub oficial comandante dos navais fez um disparo contra o seu captor, ao mesmo tempo que este dava a sua gente a voz de “fogo”. (JORNAL ANOTICIA, 4 de Outubro de 1931). Já Higino de Barros Lemos afirma que o Sargento Moyses do 13º B.C tentou desarmar o Sargento dos Navais Santino Correia de Queiroz e acabou atirando nele e este responde também alvejando Moyses e os dois teriam caindo mortos. No livro de entradas e saídas do Hospital São José, aparece o diagnóstico da morte de Santino Correio de Queiroz como “Ferimento profundo no ventre”. Os números de mortos no Mercado Municipal divergem. Lemos afirma terem sido 9. O jornal ANOTICIA fala em 10 mortes. Em sua monografia Vera Maria Meyer fala em 8 mortes.

Certo mesmo é que houveram muitas mortes e como a área era um importante local de trânsito de populares, o pânico e o medo foi gigante a ponto de que enquanto uns corriam outros se jogavam no rio cachoeira devido ao assusto de estar perto de um tiroteio.

O dia 10 de Outubro de 1930 foi um dia histórico em Joinville, com combates, feridos e principalmente mortos. O passado e sua interpretação como negócio tem como moeda de troca o sentido da subjetividade. Sendo assim, assinala a relação entre lembrança e esquecimento na construção da cultura histórica. Sendo assim este dia foi relegado ao esquecimento e o passado ficou distante. Foi um dia traumático, que todos quiseram esquecer dali por diante. Coube a este historiador lembrar este dia tão de tanto medo e horror na história joinvilense.

 

  1. Referências

 

ARQUIVO HISTÓRICO DE JOINVILLE. LIVRO DE ENTRADA E SAÍDAS DO HOSPITAL SÃO JOSÉ (20/4/1927 à 31/12/1935). Joinville, 2017.

 

LEMOS, Higino de Barros. Antecedentes do movimento revolucionário de 1930. In: TOURINHO, Plinio. Cinqüentenário da Revolução de Trinta no Paraná. 2ª Ed. Curitiba: Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense, 1980.

 

MACHADO, Nicácio Tiago. História Enciclopédica de Joinville. Joinville: Edição do Autor, 2014.

 

MEYER, Vera Maria. Os reflexos da Revolução de Trinta em Joinville. Joinville, 1989. 34 f. Monografias (Especialização em História da América) – Fundação Educacional da Região de Joinville.

 

Jornais consultados no meio digital e arquivístico:

 

A NOTÍCIA. Joinville, outubro de 1931. Hemeroteca digital da Biblioteca nacional;

A NOTÍCIA. Joinville, Março de 1998. Acervo AHJ;

Autor: Rafael José Nogueira. Graduado em História pela Univille.