Por que o JEC foi criado?

por Rafael José Nogueira - 22 de abril de 2017

1. Apresentação

Apenas mais uma fusão entre dois times como outras tantas? Projeto das elites? Projeto político do governo militar? Vamos conferir!

IMAGEM A: O primeiro jogo oficial do JEC contra o Vasco. A partida terminou 1 a1, gols de Tonho para o JEC  e Roberto Dinamite para o Vasco. A escalação, da esquerda para a direita, em pé: Silvinho, Djalma, Piava, Pompeu, Ditão e Renato; agachados: Chico Samara, Linha, Tonho, Fontan e Zequinha. Data: 9 de Março de 1976. Fonte: http://jec.com.br/clube/historia/

2. Hipóteses

Existem algumas hipóteses do porque o JEC foi criado. A primeira delas trabalha com a ideia de divulgar a cidade por meio do futebol, e ampliar sua fama de cidade industrial que estaria em amplo desenvolvimento. A seguinte proposta explicativa fala de uma soma entre imprensa e empresários para salvar o futebol em Joinville e estimular as massas para o consumo de notícias esportivas. Esses dois primeiros eixos explicativos estão presentes no capítulo “Emergência e gloria do tricolor: Joinville Esporte Clube” do livro “O futebol em Santa Catarina: História de clubes (1910-2014)” organizado por pesquisadores da UFSC.

A próxima teoria é apresentada por Medeiros usando como fonte a entrevista com o professor Afonso Imhof da Univille que acompanhou de perto o processo de criação do JEC. Por ser uma espécie de síntese das duas primeiras propostas em conjunto com outras questões, vamos apresentar ela melhor.

Imhof apresenta vários fatores do contexto da época: chegada de imigrantes paranaenses, necessidade de mão-de-obra para as indústrias da cidade e assim por diante. Ela trata da estratégia de uniformização desses indivíduos tornando-os joinvilenses, nas palavras de Imhof: “É isso que eu chamo de identidade dessa gente, uma identidade cultural. Não necessariamente um espetáculo, uma obra de arte, museus ou fundação da cidade. Identidade cultural é no aspecto das pessoas diríamos que tinham a mesma intenção, a mesma voz e a mesma querência das coisas.” (MEDEIROS, 2016, p. 81). As elites segundo ele não estavam tendo êxito em controlar as massas como tinham conseguido outrora. A saída para isso encontrada foi o esporte. Entretanto Imhof distingue esporte de futebol. Em resumo esporte era amador sem objetivo financeiro e futebol seria uma aposta, um jogo de azar, investir para ganhar. Isto é, o futebol era o esporte que fornecia o lazer para disciplinar as classes mais pobres. Ele lembra que o ano de 1976 é importante devido as mudanças que o país passava: o definhamento do regime militar, o MDB crescendo cada vez mais, a economia não apresentando os bons resultados de antes e claro a população mostrando que queria mudanças ao eleger Pedro Ivo Campos. Nos bastidores Imhof comenta a reação das elites:

Isso não está registrado em lugar nenhum, fui eu que vi, mas na posse do Pedro Ivo Campos, no gabinete da Prefeitura, ali a gente pode ver o Hans Deter Schmidt, diretor-presidente Tupy na época, pedir a palavra e fazer um pequeno discurso e dizer ao Pedro Ivo Campos para que todos pudessem ser ouvidos, que pudessem participar disso. Ou seja, os empresários. Para que eles não se sentissem alijados. Então isso é uma inteligência dessa gente, eu acho isso de cooptação, democrática, claro. E esse é o caldo socioeconômico. (MEDEIROS, 2016, p. 82)

O professor Imhof não nega a crise de Caxias e América e não pensa em elites como algo homogêneo, pelo contrário, devem ser estudadas em suas condições específicas. Nos lembra da complexidade em gerir um clube. É então quando surge a liderança de Luiz Henrique da Silveira que tinha grande aceitação entre os empresários e conforme Imhof afirma foi o comandante, a ponte entre os empresários e a fusão dos clubes. Ele chega então a sua ideia central de “pão e circo” num momento de transformação social a nível nacional, estadual e municipal. Dito de forma simples, o que estava em pauta era o futuro da classe trabalhadora imigrante. O JEC era o ponto fulcral das massas que estavam crescendo. Era agora então o elemento norteador do joinvilense, sem divisões ou tensões sociais. Medeiros questiona sobre o possível recorte social entre América sempre visto como o time das elites e o Caxias o time dos menos abastados. Imhof responde que podemos fazer esse recorte, contudo devemos entender que a classe média que ia nos jogos do Caxias é diferente e por isso estigmatizada. Sobre a conhecida tese da esquerda do futebol como alienação e meio de reduzir a consciência de classe e assim desestruturar os movimentos sociais, é reiterado por Imhof que era o futuro e a autoestima dos novos joinvilense imigrantes que preocupavam as elites, e elas sempre vão difundir o discurso do “bem para o povo” e explicação que a alienação nesse caso não serviu para formar pessoas amorfas, pelo contrário em vez de excluir buscou mostrar que estava incluindo: “E o que é essa inclusão? É todos sentirem-se harmonizados, sintonizados, com o processo de crescimento da cidade que é o meu crescimento. Ilusório, claro, mas ajuda a dominação.” (MEDEIROS, 2016, p. 84). Por fim também concorda com a influência da imprensa para a fusão do JEC, numa época de extrema falta de escolhas, diferentemente de hoje com as redes sociais e a inclusão digital.

É difícil precisar qual a principal argumentação de Afonso Imhof uma vez que ela não pensa de forma monolítica e linear. Porém para resumir essa longa explanação podemos dizer que Imhof acredita que a fusão foi um bolo para usar uma metáfora que juntou vários pedaços, no caso interesses: das elites, dos empresários, da classe política, da imagem de Joinville, a solução para a crise do Caxias e do América, a transformação organizacional da gestão dos clubes, a identidade e o perfil dos imigrantes que aqui chegavam, as novas configurações da consciência da população, as mudanças políticas mostradas nas eleições e finalmente a cereja do bolo a dominação.
O grande segredo dessa dominação foi enganar os indivíduos dissimulando-os sob o nome de Joinville Esporte Clube de modo que eles torcem pela sua dominação como se fosse sua libertação nessa perspectiva. A imagem abaixo com os fundadores e o conselho de deliberativo ilustra a aglutinação de interesses dos vários setores que convergiam para um mesmo ideal segundo Afonso Imhof.

IMAGEM B: Convite do comitê Pró-fusão América F.C e Caxias F.C. Data: 24 de Fevereiro de 1976. Fonte: Joinville de Ontem.

3. Considerações Finais

Apresentei algumas suposições do porque o JEC teria surgido. Não é o texto final sobre todas as propostas do que levou ao surgimento do JEC. Trouxe algumas apenas para abrir o debate e abrir novas possibilidades para entender o que levou a criação do JEC. O objetivo não é desmerecer o clube e sua história, mas sim compreender o processo de sua fundação e seus meandros. É normal haver discordâncias quanto as ideias expostas. O JEC mexe com as emoções da cidade. Uma das formas de respeitar sua história é entende-la. 

4. Referências

BASSANI, Jaison José; INVERNIZZI, Lisandra; MARAGNO, Mozart; Vaz, Alexandre Fernandez Emergência e glória do Tricolor: Joinville Esporte Clube. In: Alexandre Fernandez Vaz; Norberto Dallabrida. (Org.). O futebol em Santa Catarina: História de clubes (1910-2014). 1ed.Florianópolis: Insular, 2014.

MEDEIROS, Yan Pedro Kuhnen. Jornalismo Esportivo ou Assessoria de Imprensa? Uma Análise da Cobertura do Jec nos Jornais Joinvilenses. 2016. 94 f. Monografia (Graduação em Jornalismo) – Associação Educacional Luterana Bom Jesus/Ielusc, Joinville.