Aristides Largura: o prefeito integralista

por Rafael José Nogueira - 13 de abril de 2017

  1. Apresentação:

Quem foi o prefeito integralista de Joinville? Como foi o processo eleitoral? Por que elegeu-se um integralista? Vamos entender isso e muito mais!

 

  1. O que foi o integralismo

 

Segundo verbete do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da Fundação Getúlio Vargas o integralismo seria um:

 

[…] movimento de inspiração fascista mais importante organizado no Brasil, fundado por Plínio Salgado em 1932, tornou-se o primeiro partido nacional com uma organização de massa implantada em todo o país, cuja força política foi estimada, em 1936, entre seiscentos mil e um milhão de adeptos. (CDPOC)

 

Sobre sua a sua doutrina, o verbete sobre a ação integralista no Brasil nos apresenta alguns aspectos interessantes sobre o movimento, entre eles:

 

– Conservadorismo;

 

– Ordem e Progresso;

 

– Meritocracia e União coletiva;

 

– Valorização do campo;

 

– Mitos de origem;

 

– Nacionalismo;

 

– Estado Integral-corporativo (Estado Familial-corporativo para Plínio Salgado e Estado sindicato-corporativo para Miguel Reale circulavam amplamente no interior da AIB como complementares uma da outra, em conseqüência, fazendo parte, ambas, da ideologia;

 

– Combatia o capitalismo internacional, o socialismo e o judaísmo;

 

– História determinada (“Deus dirige os destinos dos povos”);

 

– Crença em um progresso moral do ser humano (“o homem deve praticar sobre a terra as virtudes que o aperfeiçoam”);

 

– Humanismo inspirado no retorno ao ideal medieval de uma sociedade harmoniosa (“os homens, e as classes podem e devem viver em harmonia”);

 

– Hierarquia da sociedade por meio dos grupos naturais (família, sindicato e unidade política local)

 

– Mito da “quarta humanidade”.

IMAGEM A: Cartaz alusivo a expressão característica do movimento integralista: Anauê! Que seria do Tupi com o significado de “Você é meu irmão”. Destaque para o Sigma, letra do alfabeto grego. Fonte: InfoEscola.

 

  1. Integralismo em Joinville

 

Com a promulgação constituição de 1934 abriu-se espaço para o integralismo surgir em Santa Catarina através de Othon Gama d’ Eça em Florianópolis que chefiou o movimento no estado. Depois disso o movimento se espalhou pelo Estado. Daniely Wendland em sua dissertação nos traz uma entrevista do próprio Aristides onde ele afirma que o movimento foi surgindo de modo autônomo em relação a capital do estado. Ele afirma que um jovem comerciante chamado Xavier Schlenk vindo de São Paulo já em 1932 trazia consigo vários materiais do movimento. Aristides cita também Ernani Bessa que do mesmo modo que Xavier igualmente esteve em São Paulo e teve acesso a materiais do integralismo. Assim segundo Daniely Wendland: “Ambos mostraram os documentos aos amigos Juca Ramos, Euclides Gonçalves e Aristides Largura, que começaram a encontrar-se em cafés para discutir as ideias integralistas.” (WENDLAND, 2011, p. 41). A pesquisadora comenta sobre o jornal Anauê criado em 1934 e a mudança da sede do núcleo integralista de um imóvel na Rua Santa Catarina para uma sede maior no centro de Joinville. O jornal Anauê coloca no mesmo ano de 1934 a fundação do movimento na cidade: “De qualquer forma, naquele ano o núcleo da cidade foi oficialmente reconhecido pelos chefes nacional e provincial. ” (WEDLAND, 2011, p. 41).

IMAGEM B: Foto da passagem do líder integralista Plínio Salgado (bem ao centro na mesa) por Joinville no “Palace Theatro” lotado. Vemos à direita e à esquerda faixas com os nomes dos filmes em cartaz. Data: 31 de Maio de 1935. Fonte: Dilney Cunha.

  1. O candidato Aristides Largura

 

Os nomes mais prováveis do movimento integralista para as eleições de março de 1936 eram: o médico Rocha Loures que foi chefe do movimento e redator do jornal integralista em 1935 e claro

Aristides Largura (WEDLAND, 2011, p. 46). Mesmo com primeiro sendo mais cotado acabou-se pela escolha do segundo.

Largura tinha pai italiano e mãe brasileira. Nascido em 1906 na cidade de Rio dos Cedros, pertencente na época a Blumenau. Em 1923 recebeu convite de Orestes Guimarães para ser diretor em Joinville de uma instituição escolar. Foi professor por pouco tempo em Blumenau. Volta a Joinville para o cargo de inspetor de uma escola estadual ofertado por Plácido Olympio de Oliveira. Fica pouco tempo e acaba retornando a Blumenau, por determinação de Nereu Ramos então governador de Santa Catarina que o demitiu pouco tempo depois por seu envolvimento com o integralismo. (WEDLAND, 2011, p. 46). Daniely Wedland descreve que Largura conhecia todo o interior de Joinville o que ajudou ele a entrar em contato com estrangeiro e descendentes, além das camadas mais pobres da cidade, o que parece ter se refletido nas eleições: “O fato  de  Aristides  Largura  ter  conhecido  a  Joinville  dos agricultores e a dos trabalhadores fabris pode ajudar a explicar a vitória integralista  em  15  das  20  seções  eleitorais,  em  uma disputa  onde  o candidato vitorioso residia em Blumenau e voltou a Joinville apenas 15 dias antes das eleições.” (WEDLAND, 2011, p. 48).

 

Imagem C: Retrato de Aristides Largura com uniforme do movimento integralista. Fonte: Arquivo histórico de Jaraguá do Sul.

  1. Eleições de 1936

 

Para frear as aspirações integralista, foi formada a “Frente Única pró-Joinville”. Diz Daniely Wedland que foi uma coligação formada na cidade como oposição juntando dois rivais históricos: Max Colin do partido liberal, extensão da Aliança liberal que tomou o poder no Brasil e em Joinville anos antes em 1930, justamente dias antes das eleições de outubro do mesmo ano contra Hans Jordan do Partido republicano. Agora os dois que outrora foram inimigos se uniam para combater o integralismo. Contudo essa aliança só aconteceu depois de muita negociação entre esses rivais históricos conforme na fala de Daniely Wedland. Sem contar que os dois partidos estavam desarticulados e tinham que lidar com a eleição de Nereu Ramos para o governo do estado, algo não esperado devido as circunstâncias políticas dos anos anteriores.

Em 1935 Plinio Salgado, o famoso líder nacional da AIB vem a Joinville fazer militância em favor do seu grupo: […] Salgado seguiu viagem a Blumenau depois de uma conferência aberta a quem interessasse participar que culminou em uma passeata na Rua do Príncipe […] (WEDLAND, 2011, p. 49)

A “Frente Única pró-Joinville” só iria anunciar seu candidato em janeiro de 1936, dois meses antes das eleições. Acabou que a coligação decidiu por uma solução conciliatória anunciando o novato na política Joinville Sérgio da Vieira Fonseca que era farmacêutico e conhecido comerciante na cidade, além de não estar ligado a nenhum dos dois partidos. Ele era assim a “solução conciliatória”.

Não houve planos de governo por parte dos integralistas para as eleições. Não teve essa preocupação em apresentar um projeto de cidade para convencer o eleitorado a votar em seu candidato. Apenas 8,5% dos joinvilenses votaram o que talvez explique a falta de interesse em apresentar propostas. Segue abaixo um resumo do resultado final das eleições realizadas no dia primeiro de março de 1936:

Em relação a distribuição dos votos: “[…] integralismo perdeu em apenas 5 do total de 20 seções da cidade […] Os números da votação demonstram que não havia áreas determinadas de influência integralista, mas uma distribuição quase homogênea do partido na cidade.” (WEDLAND, 2011, p. 69). A força do núcleo integralista foi vista nas urnas, mesmo com baixo índice de participação do eleitorado. Na câmara municipal não foi diferente e os integralistas conquistaram a maioria das cadeiras elegendo 9 vereadores contra 6 da Frente única:

Vereadores AIB:  Dr.  Josino da Rocha Loures, José Koerbel, Otto Hönke, João Baptits Olinger Julio   Shoeroeder, Antonio Zimmermann, Otto Pfützenreuter, Rodolfo Hübdner e Alcebíades Deodoro Duarte.

Vereadores Frente Única:  Max Colin, Roberto Schmidlin, Fernando Fiedler, monsenhor   Dr. Gersino de Oliveira, Gustavo Schossland e Frederico Hübener (WEDLAND, 2011, p. 70-71)

 

Apesar de ser uma diferença de apenas 3 vereadores foi significativo se pensarmos que o movimento sequer apresentou projetos, sem falar no pouco investimento financeiro do movimento. A pesquisadora Daniely Wendland fala sobre que o TRE rejeitou todas os pedidos de invalidar a eleição. Ela continua dizendo que o jornal A Notícia uma semana depois das eleições colocava como certo que a eleição seria anulada. Contudo, Largura assumiu o governo de Joinville em 4 de abril de 1936 sem se importar com os imbróglios que a oposição tentava colocar em seu caminho para dificultar sua posse. Sobre o resultado ele se mostrou surpreso em entrevista a Dúnia Freitas reproduzida por Daniely Wendland ao afirmar que esteve em Joinville como foi dito só 15 dias antes das eleições, pois residia em Blumenau e precisava sustentar a sua família. Além dos recursos serem pouquíssimos para a eleição. Ele revela que a única despesa se deu ao transportar eleitores de uma zona rural onde não haviam urnas, sendo o valor gasto de 70 mil-réis.

 

  1. Qual a causa da vitória de Aristides Largura?

 

Aristides Largura era jovem como a maioria dos membros do integralismo em Joinville. Ele foi o prefeito mais jovem da cidade com 29 anos, conforme Daniely Wendland fala. Como sabe-se ele não era de origem germânica e também não era natural de Joinville, ou mesmo morava na cidade. O idioma alemão era um problema para a comunicação na cidade com eleitores e aliados tendo que contar com a ajuda de tradutores.

Daniely Wendland apresenta algumas hipóteses da vitória dos integralistas mesmo com condições desfavoráveis: sensibilidade e respeito ao lidar com descendentes e imigrantes, o trabalho de base de ir até as comunidades rurais afastadas o que deu prestigio ao movimento na “defesa” dos mais pobres bem diferente da Frente única que priorizou a parte urbana da cidade e sabemos pelos dados que mais da metade da população vivia na parte rural da cidade, saturamento da velha política dos grupos políticos da cidade, a juventude dos membros somado ao fato de que os integrantes do movimento não eram em ligados a política, sendo de várias camadas sociais  acabava dando um status de outsider, isto é, indivíduos fora dos grupos oligárquicos da política tradicional joinvilense. A população viu pessoas sem relação com os velhos modos de fazer política na cidade e claro: “Trazia um discurso voltado às classes até então desprestigiadas, como a operária, além de propor mudanças que ultrapassavam as questões relacionadas à administração municipal.” (WENDLAND, 2011, p. 74).

 

  1. O sonho durou pouco… chegava o Estado Novo

 

Em 10 de Novembro de 1937 Vargas instaurava o chamado “Estado Novo”, trazendo junto o fim dos partidos, bem como das assembleias e câmaras. Nereu Ramos foi mantido como comandante de Santa Catarina com o agora cargo de interventor, coube a ele a função de nomear os prefeitos das cidades catarinenses. Alguns prefeitos prevendo que seriam demitidos renunciaram antes de qualquer ato. Por fim Daniely Wedland fala que nesse meio de tempo entre Novembro e Janeiro, Largura sofreu com grande pressão da imprensa opositora para que renunciasse. Aristides Largura entretanto, esperou até ser demitido em Janeiro de 1938, ficando assim quase dois anos no cargo. Dois motivos são citados por Daniely Wedland: uma suposta proibição da foto de Vargas na prefeitura, que o próprio Largura nega. E o segundo que é a inimizade com Nereu Ramos. Quanto ao primeiro parece ser mais boato da oposição, sem muito fundamento. Até porque existia uma relação razoável entre Vargas e os integralistas. Já o segundo motivo tem mais sentido, pois eram os governos estaduais que que tinham rixas e cometiam perseguições aos núcleos integralistas: De fato, as medidas proibitivas em relação ao uso da camisa verde e outras insígnias foram tomadas pelo governo catarinense, que   seguia   o exemplo de outros governadores.” (WEDLAND, 2011, p. 78). Esse argumento parece o mais plausível. Reforçado pela hostilidade de Nereu Ramos as colônias alemãs, e via nessa interação entre integralismo e colonos uma ameaça. Era o início da nacionalização…O sonho durou quase dois anos de Abril de 1936 a Janeiro de 1938.

IMAGEM D: Aristides Largura aparece ao lado de Getúlio Vargas na parte quase fora da foto, possivelmente antes do golpe estado novista em novembro. Data: 1937. Fonte: Jornal A Notícia.

 

  1. Referências

 

CAVALETTI, Laucí Aparecida. O integralismo e o teuto-brasileiro: Joinville 1930-1938. Florianópolis: UFSC, 1998. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Federal de Santa Catarina.

CPDOC. Integralismo. Disponível em: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/integralismo. Acesso em: 13 abr. 2017.

 

WEDLAND, Daniely. Integralismo, círculo operário católico e Sindicatos em Joinville (1931-1948). 225 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Santa Catarina, 2011.

 

Crédito das imagens:

 

Info Escola: Imagem A: Cartaz com a saudação indígena Anauê. Disponível em: http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/03/integralismo.jpg. Acesso em: 13 abr. 2017.

 

A Notícia: Imagem B: Foto de Aristides Largura em 1937 ao lado de Getúlio Vargas no Rio de Janeiro. Disponível em: http://wp.clicrbs.com.br/anmemoria/2012/09/09/an-memoria-domingo-com-getulio-vargas/?topo=84,2,18,,,77 Acesso em: 13 abr. 2017.