Joinville Esporte Clube e a Modernização do Futebol: uma história complexa

por Rafael José Nogueira - 31 de março de 2017

 Um pouco da história do Joinville, e sua inserção na modernização do futebol brasileiro. Confira!

1. Joinville e as origens

O JEC surge em um momento econômico favorável como pode-se ver na tabela. Temos no início da década de 70 o chamado “milagre econômico” com aumentos acima dos 10% entre 1970 e 1973. Passado esse crescimento em 1974, 1975, o crescimento não é tão alto. Entretanto em 1976 a economia volta a crescer na casa dos dois dígitos. Combinado a isso a indústria metal-mecânica em crescimento, com bastante de mão-de-obra disponível que chegavam principalmente do interior do Paraná. Em Para completar ainda temos os dois times da cidade em crise financeira grave. Caxias e América não conseguiram acompanhar a evolução do futebol. Em meio a esse contexto nasce o Joinville com a fusão dos departamentos de Caxias e América. Os dez primeiros anos são de domínio quase completo no estado. Era uma soma de ótimos elencos com um bom trabalho de bastidores. Destarte chega a década de 80 e o castelo de vitórias e conquistas começa a desmoronar.

2. A decadente década de 90

Depois de 10 anos aproximadamente dominando o futebol catarinense o JEC entra na década de 90 sem perspectivas. E como andava o JEC nesse período? A melhor frase para se definir é “agora a festa acabou” segundo Alexandre Perger. O JEC parece ter-se perdido no tempo. Teve a chance de consolidar um patrimônio mas não o fez. Em 1990 os clubes de futebol são proibidos de promoverem loterias por ordem do ministério da fazenda. Assim acaba o carnê JEC ouro uma das principais fontes do JEC. Como consequência o JEC entra em uma crise financeira junta-se a isso o fato de o time já estar três anos sem ganhar nada. (PERGER, 2010, p. 40). Perger fala que um ano antes em 1989, Waldomiro Schutzler juntamente com uma comitiva vai até Florianópolis pedir ajuda ao governador Pedro Ivo Campos. O pedido era por um terreno na Rua Santa Catarina. Mas voltaram sem resultados, no dia 27 de fevereiro morre Pedro Ivo Campos e assume o vice Casildo Maldaner. Novamente Waldomiro mais a comitiva vai a capital agora acreditando que o novo governador aceitasse a mesma proposta de antes de doar o terreno. A negociação foi difícil mas o presidente do figueirense e secretário do governo estadual Sadi Lima na época convence Casildo Maldaner. A doação teve parecer favorável na assembleia legislativa, e houve um jantar neste ano para a entrega. Waldomiro tinha planos de uma futura sede grande como a dos grandes clubes brasileiros. Isso nunca se realizou. Em 2004 houve a tentativa de trocar este terreno com outro localizada na Avenida Santos Dumont, sem sucesso. Para complicar mais ainda o Ministério Público entrou com recurso pedindo o terreno de volta argumentando que o time tinha demorado demais para utilizá-lo. (PERGER, 2010, p. 40)

O título do campeonato sul-americano de Juniores em 1992 dava a impressão que as coisas iriam voltar ao seu lugar e que o time começa a se profissionalizar mas era uma falsa impressão. Apesar de todos os títulos Waldomiro é criticado na sua gestão por que como já foi dito poderia ter construído um patrimônio mas preferiu investir no futebol. Um pouco antes de deixar o clube em 1993 organizou um bingo para quitar as dívidas do JEC. No final desse ano o JEC acumulava 230 milhões de cruzeiro em caixa. O homem que deu tantas glorias ao JEC estava desgastado pelo motivo do JEC estar seis anos sem títulos somado as dividas saiu em Janeiro de 1993. Em seu lugar assumiu Vilson Florêncio que ficou até 1998. (PERGER, 2010, p. 41)

Dona Arminda Brandenburg com a camisa da torcida organizada “Falcões tricolores”. Fonte: Fotolog Jec SC

Foi na gestão de Florêncio que o clube conseguiu ter o seu centro de treinamento, localizado no Morro do Amaral por intermédio dele e de Marcio Vogelsanger também ex- presidente do JEC. Eles são sócios de uma imobiliária. Muitas eram as dificuldades quando Florêncio assumiu o clube: falta de patrocínio, receitas baixas, poucos sócios. A venda de jogadores era basicamente a renda principal do clube nessa época. Depois da saída de Waldomiro vários empresários deixaram de apoiar o clube. Durante os cinco anos da gestão de Florêncio o JEC passou por problemas financeiros. Irineu Machado convidado para ser diretor financeiro lembra em entrevista à Perger que: “Depois que o Waldomiro saiu ninguém quis mais ajudar” (PERGER, 2010, p.42). Ele ainda lembra de encontrar uma lista da década com mais de 100 apoiadores e agora mais nenhum empresário queria ajudar. Até mesmo Cau Hansen deixou claro quando procurado que não ajudaria mais os clubes. O bingão foi feito até 1996 quando acabou por que a empresa que administrava saiu do negócio. (PERGER, 2010, p. 42).

É 1997 já são 10 anos sem títulos, sem suas fontes de renda o clube teve que amargar anos antes em 1992 o rebaixamento da série B para a série C conseguindo voltar a disputar a segunda divisão em 1996 mas ainda assim os problemas continuam e além disso o mais próximo que tinha chegado de conquistar o catarinense tinha sido nos anos de 1989, 1990 e 1996 em que foi vice-campeão. O campeonato catarinense é um título tão cobrado pela torcida como qualquer outro. Torcida essa que forma-se nesse contexto de crise. Antes dos anos 90, a torcida era muito dispersa.

Símbolo da primeira torcida organizada do Joinville, fundada em 1976. Fonte: ND

Temos o registro de uma primeira experiência com relação a torcida organizada entre o fim da década de 70 e a década de 80 com os “Falcões Tricolores” (IMAGEM A e B). Porém, a torcida ainda dividia-se muito ainda entre Caxias e América. Acrescentado pela fusão ser apenas das diretorias, os dois times continuaram a existir. É no alvorecer dos idos de 90 que começa a se formar uma identidade na torcida em torno do Joinville. A década de 90 foi caracterizada pela ausência de apoio de empresários e políticos que antes apoiavam o JEC. As empresas que no passado davam apoio forte ao JEC apenas pagam por placas publicitárias. De protagonista o JEC virou nos anos 90 simplesmente coadjuvante do futebol catarinense. (PERGER, 2010, p. 44).

3. Joinville e a empresarização

 

O que caracteriza uma empresa? A partir dos pontos apresentados por Solé, Silva e Costa no seu artigo “Empresarização e controle organizacional: um estudo nos clubes de futebol em Santa Catarina” que servira como apoio para o debate, montam um pequeno esquema de aspectos que constituem uma empresa que será o conjunto de características a ser usado como apoio para discutirmos o ideal de clube-empresa.

[…] a empresa é: a) uma organização que concebe, produz e vende mercadorias; b) capital e lucro, ou seja, é uma organização com moeda, capital e benefício econômico; c) uma organização com escritura e contabilidade; d) uma propriedade privada; e) uma organização salarial; e f) uma organização que produz linguagem. (COSTA, SILVA, 2006, p. 4)

Relacionado a essas questões temos a noção de controle organizacional. Existem algumas discussões teóricas segundo Silva e Costa sobre o conceito de controle. Eles então resumem os conceitos em três grandes formas de controle: direto, burocrático e difuso ou cultural.

O primeiro é quando ordens são colocadas, com vigilância ostensiva e atuante. O segundo tipo de controle é fundamentado nas normas, nas hierarquias e na especialização das atividades. Por fim o controle difuso, que parece ser o mais presente no Joinville é ancorado nos princípios culturais, com os seres se alinhando em um olhar semelhante. É comungando um manual de valores que a organização passa a exercer controle sem necessitar do direito positivado (escrito) ou mesmo da vigilância física.

A ideia da empresarização tem como uma das características a posse de produtos licenciados do clube como forma de gerar mais vínculo com o clube. No caso do JEC o principal produto comercializado foi o jogador na década de 90 em consonância com a Lei Pelé. Muito antes do Joinville o Figueirense por exemplo já contava com loja própria e 120 produtos licenciados enquanto o JEC só vai ter a sua própria loja por volta do final da década do ano 2000. Em relação as finanças os times catarinenses usavam o livro-caixa no caso do JEC até 2003 demonstrando sua dificuldade em profissionalizar-se. Nesse campo ainda na década de 90. O JEC tem estatuto legal como a maioria dos clubes catarinenses, mais as atividades até a década de 90 eram realizadas na sua maioria por voluntários. Ainda nos dias atuais os cargos da diretoria não são remunerados e geralmente oriundos de indicações e laços de amizade, com outros membros.

O JEC permanece sem um estádio próprio. Desde 2004 tem concessão para jogar na Arena Joinville, que não é um estádio com o objetivo de ser multiuso para atividades esportivas do munícipio. Nos anos 70, 80, 90 usou outro estádio alugado o Ernesto Schlemm Sobrinho, o famoso “Ernestão”. Em relação as categorias de base o JEC já possui o seu centro de treinamento desde 1995. Conseguindo sua ampliação em 2011. Com uma estrutura maior tivemos os resultados em campos: dois títulos brasileiros em um espaço curto de tempo. Fica-se assim provado que existe uma relação entre profissionalização do departamento de futebol potencializado na modernização do centro de treinamento e resultados.

No artigo dos pesquisadores Carlos Everaldo Silva da Costa e Rosiméri Carvalho da Silva chamado: “Empresarização e controle organizacional: um estudo nos clubes de futebol em Santa Catarina” que o JEC é um dos times que mais apresentam uma linguagem empresarial:

Os clubes que demonstraram isso mais intensamente foram o Figueirense – ao tratar de perfil de funcionários, equilíbrio orçamentário, gestão de pessoas, licenciamento de produtos, royalties e marketing; e o Joinville, com a utilização de trechos como: o futebol começou a ter uma grande transformação como negócio, ramo do entretenimento, clubes consumidores de jogadores, desbravar outros mercados, antes o consumo era local, visão de mercado, marketing esportivo, cenário turbulento, profissionalizar a gestão. Padrão de exigência de qualidade, índices de controle e endomarketing. (COSTA, SILVA, 2006, p.9-10, grifo meu).

Essa pesquisa é de 2000 a 2004, está obviamente datada nos dados. Sem considerar ainda a aparição recente da Chapecoense como nova força no estado. Mas podemos destacar o trecho “profissionalizar a gestão” que permanece ainda atual. O JEC ainda não se profissionalizou totalmente e tem um longo caminho pela frente. Vamos a outro exemplo só no novo milênio o JEC começou a instituir um processo de “formalização” das suas atividades.

Antes disso, sobretudo na década de 90 não havia basicamente, pois todos se conheciam. Com efeito, muitas reuniões eram feitas fora do horário de trabalho na década de 90, pois os dirigentes tinham outras atividades além do clube.  Até alguns anos atrás o JEC não tinha alguém com formação em Marketing para gerenciar essa parte do clube quem dirá nos anos 90 ou ainda um contador de oficio. Na década de 90 o tipo de controle que predominou e continua predominando no JEC como já foi dito é o “controle difuso” que baseia-se na ideologia e identificação como estrutura de engajamento controlando os indivíduos pelos aspectos culturais. Essas questões culturais têm importância porque aqui os indivíduos compartilham do mesmo pensamento. É preciso que uma gama de valores seja compartilhada para que o meio exerça o controle sem precisar de regras escritas ou algum tipo de vigilância. Dito de outra forma não temos uma hierarquia ainda totalmente esclarecida, e nem o processo completo de burocratização para o andamento administrativo. É um processo no início e muito recente.

A questão da gestão é crucial tanto fora de campo como dentro de campo. Os critérios para um clube-empresa são básicos: burocracia, hierarquia, gestão profissional, organização administrativa. Sem isso, o futebol tende a perder muito em desempenho. Presume-se que o método de controle que predominaria num clube como o Joinville baseado no controle difuso fosse o controle burocrático:

No entanto, na medida em que todo controle e toda forma organizacional supõe um conjunto de valores, não se pode supor que o controle difuso desaparecerá, mas que cederá parte do espaço ocupado ao controle burocrático e que, provavelmente, os valores compartilhados serão transformados. Além disso, pode-se supor que, na medida em que os clubes se espelhem em técnicas atuais de gestão empresarial, eles desenvolvam práticas claramente destinadas a promulgar certos valores, notadamente, vinculados ao “mundo-empresa”, entre seus integrantes. (COSTA; SILVA, 2007, p. 7)

A profissionalização não era o objetivo maior dos clubes catarinenses assim como o caso JEC no passado. Esperamos que o seja no presente e no futuro próximo. Foi comum o futebol ser um hobby no passado para muitos dirigentes. Aqui entra o patrimonialismo de muitos presidentes. A falta de noção exata entre privado e público, aspecto principal dessa visão administrativa confundia recursos do próprio presidente com dinheiros advindo do clube. Vista como meio de salvar o clube, nada mais é que um patrimonialismo velado[1]. Em resumo usa-se o clube como sua propriedade privada. Praticamente todos os presidentes do Joinville usaram e continuam a usar essa forma de administração. Haja visto o “bicho”, espécie de premiação paga informalmente mediante um desempenho pedido pelos dirigentes. Os empresários que outrora investiam no clube parecem ter desaparecido. Se compararmos a lista de conselheiros de 1987 com os atuais nomes, provavelmente não irá se observar a permanência de muitos nomes do meio empresarial. Essa falta de confiança se justifica na falta de transparência do clube e na insistida profissionalização da gestão, o clube não transmitira confiança tanto para patrocinadores como para investidores.

4. Dados

Aqui uma tabela retirada e adaptada dos pesquisadores Silva e Costa apresentando a análise dos dados coletados. Irei mostrar apenas a parte do JEC que é que nos interessa. Foi adotado a seguinte escala pelos autores: Fraco (FR) sem nenhuma presença dos indicadores; fraco/moderado (FR/M) para um ou alguns indicadores sem muita presença; moderado (M), mostrando alguma evolução; moderado/forte (M/FO) para uma evolução significativa; e forte (FO), quando a presença total do indicador.

A concepção de empresarização manteve-se inalterada, desde o período da pesquisa. Já a parte da escritura relacionada a administração e a contabilidade, houve evolução notável desde o momento da pesquisa, com a informatização e a disponibilidade de balanços para o torcedor no site do clube. Houve também avanços na propriedade privada, o JEC ampliou o seu centro de treinamento e modernizou ele. Falta um estádio próprio ainda. Entretanto mostrou-se progresso com sua propriedade tentando melhora-la. As organizações dos salários melhoraram muito o que ocasionou uma boa reputação para o clube neste espaço de tempo da pesquisa. Houve atrasos, mas é por conta de uma crise especifica que o clube passa por não ter desenvolvido um projeto após a subida para a série A e o título brasileiro. Caiu-se na ingenuidade que a conquista ajeitaria tudo. Talvez o JEC tenha perdido o melhor momento para subir de nível como clube e se consolidar no cenário nacional. O retrocesso parece ser os lucros que mantiveram baixos, quase sempre acompanhados de dívidas herdadas de gestões anteriores. Assim como a linguagem empresarial que foi sempre fraca na história do clube e aparece como forte no ano da pesquisa, mais por um discurso dominante num momento de reestruturação do Joinville do que realmente um ideário empresarial, que se mostra mais moderado atualmente. Os avanços ficam melhor visualizadas no aumento do controle burocrático e a conservação do controle difuso nos mostra que é preciso caminhar muito ainda. 

5. Referências

COSTA, Da Silva Everaldo Carlos; SILVA, Da Carvalho Rosiméri. Empresarização e Controle Organizacional: Um estudo nos clubes de futebol em Santa Catarina. Cadernos Ebape. BR, Rio de Janeiro, v.4, n.4, p. 01-16, dez. 2006.

SANDES, Noé Freire. O passado como negócio. O tempo revolucionário (1930). Estudos Históricos (Rio de Janeiro) v. 43, p. 125-140, 2009

PERGER, Alexandre. Glória e Fracasso: A História de uma paixão. Blumenau: Nova letra, 2010.

REDAÇÃO ND – JOINVILLE. Repórter esportivo JP conquistou a torcida joinvilense com seu jeito irreverente e voz esganiçada. Disponível em: https://ndonline.com.br/joinville/especiais/reporter-esportivo-jp-conquistou-a-torcida-joinvilense-com-seu-jeito-irreverente-e-voz-esganicada. Acesso em: 29 mar. 2017.

Crédito da tabela:

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO MATO GROSSO – CAMPUS SINOP. Professor interativo. Disponível em: http://sinop.unemat.br/site_antigo/professor_int_unemat.php?id=312 Acesso em: 29 mar. 2017. 

Crédito da foto:

A primeira torcida organizada do JEC: Falcões Tricolores Disponível em: http://www.fotolog.com/jec_sc/41914199/ Acesso em: 29 mar. 2017.

Rafael José Nogueira. Graduado em história pela Univille.

[1] No Joinville, não tem havido oposição nas eleições como tem sido praxe na sua história. Os dirigentes giram em único grupo de poder desde a fundação do Joinville. Não há renovação. O conselho deliberativo se reúne pouco e quase não tem força de atuação. Os candidatos se elegem sem oposição e sem o trabalho de apresentarem propostas para os torcedores. O resultado temos visto no ciclo vicioso que entramos desde 2010.

[1] Fundada em Maio de 1976 pelo jornalista Ayres Zacarias e o famoso JP.

[1] Ademais, temos os eventos das enchentes de 1974 e 1983 que atingiu fortemente o sul e o vale médio do Itajaí no estado e provocou a migração para Joinville.