Uma carta joinvilense em tempos getulistas

por Rafael José Nogueira - 25 de março de 2017

Durante o governo de Vargas foi comum trabalhadores enviarem cartas para o próprio presidente ou outros políticos de sua confiança fazendo pedidos diante da situação ruim que os mesmos passavam. Foi o caso da carta de um joinvilense chamado Pedro Firmino de Menezes. Confira!

1. Contexto político e econômico

O governo tinha chegado por meio de um movimento armado em 1930 e tinha enfrentado outro movimento de oposição em 1932 liderado por São Paulo, carente desta forma de legitimidade entre a população, o ano da carta 1933, era incerto. No gráfico sobre a série do PIB, nota-se que um encolhimento grande em 1930 e 1931, ou seja uma recessão, resultado da crise 1929.

O Brasil foi fortemente atingido. Com uma economia, agrária exportadora e o café representando cerca de 70% das exportações, tivemos uma queda brusca nos preços. O café não é um alimento de primeira necessidade na dieta de muitas pessoas, somado a isto, o café era e talvez ainda seja consumido com uma sobremesa nos Estados Unidos e em países da Europa. Logo, o primeiro produto a ser cortado da lista de compras destes países foi o café. Gerou uma crise de superprodução. A relação entre compra e estoque ficou desregulado. Em síntese o aumento da oferta era muito superior procura.  O resultado foi a queda drástica nos preços da saca de café. Em agosto de 1929 ela custava 200 mil réis. Meses depois com a quebra da bolsa de valores em Nova York em outubro, o preço em Janeiro de 1930 tinha baixado para apenas 21 mil réis. Mesmo com crescimento de 1933 perto dos 4%, era cedo para dizer no período que rumos a economia iria. Se no plano político e econômico reinava a instabilidade, no plano social não era diferente. A falta de acesso à educação, saúde eram problemas herdados do regime anterior, que agora Vargas tinha que se desdobrar para achar soluções. Sem contar a questão demográfica da vinda de pessoas do campo para a cidade. Os operários desde a década de 20 faziam greves e movimento pedindo melhores condições de trabalho e reajuste salarial. A nossa cidade ainda continuava com a ampliação do seu principal produto: o mate. Relacionado ao mate temos a indústria metal-mecânica, na direção da necessidade peças, ferramentas e equipamentos para a produção, que iria propiciar o ramo metal-mecânico, configurando “[…] a vocação de Joinville no sentido de indústria dinâmica”. (SOUTO, 2004, p. 145). Esse seguimento no final da década de 20 vai se diversificar em distintas áreas, entre elas as fundições que seria a gênese da conhecida empresa Tupy em 1938. Destaca-se também neste momento do final dos anos 20 e início dos anos o ramo têxtil com a fundação de sete empresas e a Cervejaria Catarinense iniciada em 1925. A cidade entrava na década de 30 com uma economia dinâmica e com as bases para a indústria metal-mecânica.

2. Apresentação e análise da carta

Apresentado o contexto da carta, abaixo a transcrição dela escrita pelo o que parece ter sido um personagem importante em Joinville nas primeiras décadas do século XX: 

Exmo. Snr. Dr. Osvaldo Aranha[1]

D.D. Ministro da Fazenda

Como é o caso que pode mais do que a lei, tomo a imensa liberdade de dirigir-lhe estas linhas.

            Tendo eu de a muito tempo exercido nesta cidade o cargo de delegado de polícia durante todo o período da grande guerra até 1927, ano em que tive que romper com o então chefe político local que atende pelo nome de Ulyses Costa, rompimento este pelo motivo de não me sujeitar a perseguir os inimigos políticos do mesmo Sr, ainda mais que nunca recebi um real do Estado, logo que fundou-se o partido da Aliança Liberal a que, fui um dos primeiros junto com Antônio Bastos e outros nos declaramos francamente solidário do mesmo partido, mesmo contra os rancores dos Konder e Ulyses, logo que fundou-se nesta nesta cidade o comitê da aliança, fui escolhido para membro do mesmo tendo lutado sem esmorecimento até a completa vitória, quando da tomada desta cidade pelas forças revolucionárias em 10 de Outubro de 1930, foi entregue a prefeitura ao Sr. Plácido de Olímpio de Oliveira, até hoje prefeito, fui também como membro do comitê, chamado a tomar assento na mesa como conselheiro municipal e no mesmo dia posto à disposição do 1º Te. Idimo Lardenberg, que chefiara o serviço de abastecimento, ficando eu como seu auxiliar durante todo perindo (sic) de ocupação, não tendo seguido junto com as forças devido o raiar da vitória antes do meu chefe sair de Joinville, tendo sido logo depois nomeado 1º Suplente de delegacia de Polícia e quase sempre no exercício de delegado, emprego este que sempre exerci sem nenhuma remuneração, com a revolução de outubro de São Paulo, trabalhei dia noite sem descanso pela vitória do grande chefe Dr. Getúlio Vargas, como poderá afirmar o Dr. Nery Kurtz então chefe de polícia, o pouco que possuía e hoje me vejo mal para sustentar 4 filhos que tenho e educa-los, é esta a razão do meu atrevimento dirigindo-me a V. Excia. o que também fiz ao Dr. Getúlio Vargas sem estoriar a minha autoação, queria merecer de V. Excia a nomeação de fiscal do Sello adesivo aqui ou em qualquer cidade do Estado ou do Paraná, sabendo que com este meu justo pedido não onera o tesouro, pois da porcentagem que sai para os fiscais é que sairia os meus vencimentos, caso V. Excia não acredite nas minhas afirmações poderá informar-se de qualquer autoridade do Estado ou do Município, o benefício que V. Excia me prestara com o atender ao meu pedido, não será feito a mim e sim, aos meus filhos que serão os beneficiados que em qualquer tempo saberão pedir ao bom Deus pelo benfeitor, se esta colocação não for possível , outra qualquer que eu ganhe para a educação dos filhos. Nunca fiz pedido a nenhum político principalmente aqui do Estado lembrando-me agora de dirigir a V. Excia apelando para vosso bondoso coração de pai e coração de amigo dos seus amigos, companheiro de seus companheiros.

            É cheio de esperanças que aguardo a honra de vossa resposta excelmo. (Sic) senhor!

            Na expectativa, pois, de merecer a atenção de V. Excia apresento a segurança de minha elevada consideração e profundo acatamento por ser

                                   De V. Excia. Atto. Patricio e Anno.

                                                                                                   Pedro Firmino de Menezes 

Joinville 7 de Março de 1933.

De antemão podemos delinear o perfil do personagem que escreve a carta. Foi delegado desde a primeira guerra mundial (1914-1918) até 1927. Desde 1906 o delegado deveria ter o título de bacharel em direito e ser indicado pelo governo estadual. Por isso é provável que ele tenha estudado em outro estado e depois quando chegou aqui, começou a circular entre as elites políticas da cidade almejando a indicação para o cargo. Foi um dos fundadores e o primeiro presidente do clube América Futebol Clube, em 1914. Na Revolução de 1930 em Joinville, foi peça importante para a vitória das tropas revolucionárias na cidade.

Ele começa indo de encontro a Ulysses Costa, chefe político de Joinville, mandado para a cidade por Hercílio Luiz para acabar com a política de Abdon Baptista, que não se fez necessário por muito já que este morreu em 1922[2]. Ficando livre o caminho para Ulysses Costa. O autor é certeiro ao dizer que não se juntou a um líder nato do coronelismo, inimigo portanto do novo regime. Reitera que não nunca recebeu dinheiro do Estado para não ser associado as velhas oligarquias. Depois sua estratégia vai na direção da fidelidade e lealdade nos momentos críticos. Se declara membro da Aliança Liberal em Joinville tão logo ela chegou na cidade. É notório a importância dada o movimento de 1930 por ele na cidade, sendo inclusive um dos participantes, como foi já foi dito. O professor Jorge Ferreira ao analisar várias cartas deste tipo atenta que: “A Revolução de 30 é a ponte que liga um Estado parcial, opressor, ilegítimo e arbitrário a outro que se apresenta como justo, neutro e acima dos interesses de classe.” (FERRERA, 1990, p. 189-190). O evento de 1930 em Joinville é usado aqui como a ruptura com política antiga e pútrida encarnada na figura de Ulysses Costa. Reforça que em 1932 continuou aliado sempre trabalhando de graça para a causa governista. Agora nesta parte ele desloca o argumento para os seus filhos. Destaca que situação é tão precária que mal consegue sustentar os 4 filhos com o pouco de dinheiro que conseguiu guardar. Se as crianças são o futuro da nação, cabia ao Estado garantir o seu desenvolver.

Aparece então o real motivo da sua carta: um emprego. Com seu currículo de serviços prestados a Getúlio e Oswaldo Aranha. Legitimou o seu pedido e revelou o seu objetivo. Dando até mesmo as condições sem prejudicar o Estado. Sabendo de uma provável boa relação do interventor de Santa Catarina Aristiliano Ramos com Oswaldo Aranha e Getúlio Vargas, mostra que sabe explorar as boas relações entre políticos e que sobretudo, que não estava alheio ao que acontecia no cenário político. Buscando uma intercessão já que Aranha era ministro da Fazenda e o homem de confiança de Vargas. Volta a deslizar o discurso para os seus filhos, afirmando que quem será beneficiado será eles e não o próprio Pedro Menezes.

Antes de ir para os cumprimentos finais exalta a característica mais visível do governo Vargas, o sentimento paternalista e cuidador. Invoca para o sentimento paternal de um líder que sabe cuidar da nação. Jorge Ferreira fala que essa gratidão não era algo isolado “[…] mas, sim, as manifestações que o Estado varguista esperava de todos os trabalhadores” (FERREIRA, 1990, p. 180). Estamos diante de uma prática que foi comum na era Vargas. Em nenhum momento criticou o Estado, colocando-se como um dos construtores dele e assim construiu seu argumento em cima da sua contribuição para o novo regime. Em certo momento muda o foco para os seus filhos, quando diz que o seu objetivo é um emprego. Era em sua concepção apenas uma retribuição do Estado que ele ajudou a construir, pois como ele diz nunca pediu nada a nenhum político.

3. Considerações finais:

Não consegui saber se a carta foi respondida, e se Pedro Menezes conseguia o que queria. Consegui descobrir que ele faleceu em 23 de Julho do mesmo ano que escreveu sua carta em 1933, isto é, alguns meses depois apenas da carta, o que deve ter agravado a crise que sua família passava. Contudo é presumível que a carta não tenha chegado a Vargas ou Oswaldo Aranha. Quem organizava as cartas era a secretaria da presidência, fazendo a ponte entre o governo e população.  Toda correspondência passava por ela. Depois era encaminhada aos órgãos específicos do pedido. No caso aqui em questão deve ter sido enviada para os seguintes ministérios da época: Ministério da Fazenda, para avaliar os custos, Ministério dos negócios da Educação e da Saúde Pública para analisar a situação de seus filhos, Ministério do Trabalho, Comércio e Indústria e Ministério da Justiça e Negócios interiores para considerar o seu cargo pretendido. Vale lembrar que o Ministério do Trabalho e da Educação foram criadas pelo governo Vargas. A organização do trabalho e a proteção do trabalhador era algo novo no período, bem como o cuidado com a educação e a saúde reunidas nesse ministério. Conforme parecer dos órgãos a secretária respondia ao interessado podendo ou não atender seu pedido. Devido a sua morte, quem sabe os governantes tenham se sensibilizado com a questão e concedido alguma ajuda a sua esposa.

Agora se o Estado era de todos se apresentando como o protetor acabando com o interesse de classes, Pedro Menezes estava cobrando justiça por seus trabalhos. Fazer o pedido de um trabalho era senão questionar o motivo da existência deste Estado.

 

IMAGEM A: Exemplo da propaganda getulista invocando sua qualidade paternalista e preocupado com os jovens. Fonte: CAPELATO, 1998.

4. Referências 

Carta de Pedro Firmino Meneses a Oswaldo Aranha pedindo favor pessoal relatando acontecimentos políticos de Santa Catarina desde a formação da Aliança Liberal até o fim da Revolução Constitucionalista, de 7 de março de 1933. OA 33.03.07.1. CPDOC, Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro. 

FERREIRA, Jorge Luiz. A cultura política popular no primeiro governo Vargas. Revista de Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 3, n.6, p. 180-195, 1990 

GIRAUD, Lauro José. O crash da bolsa de Nova Iorque e a queima do café. Disponível em: http://www.revistacafeicultura.com.br. Acesso em: 07 mai. 2016.

SOUTO, Américo Augusto da Costa. Industrialização de Santa Catarina: O vale do Itajaí e o litoral de São Francisco, das origens ao mercado nacional (1850-1929). In: BRANCHER, Ana (org.). História de Santa Catarina: estudos contemporâneos. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2004, p. 115-147.

THIAGO S. Raquel. Coronelismo urbano em Joinville: o caso de Abdon Baptista. Florianópolis: Governo do Santa Catarina, 1988.

Crédito do gráfico:

INFOMONEY. A Longa Depressão Brasileira – 2015, 2016 e 2017. Disponível em: http://www.infomoney.com.br/blogs/economia-e-politica/terraco-economico/post/4496646/longa-depressao-brasileira-2015-2016-2017. Acesso em: 23 mar. 2017.

[1] Aliado de Vargas, foi um dos grandes arquitetos da campanha da Aliança Liberal, nas eleições de Março de 1930. Depois planejou nos bastidores o movimento para depor o presidente Washington Luís, que tornou possível a Revolução de 1930. Osvaldo Aranha negociou com a Junta Governativa Provisória de 1930, no Rio de Janeiro, a entrega do governo a Vargas. Posteriormente, foi nomeado ministro da Justiça e, em 1931, ministro da Fazenda, permanecendo até 1934. É dele também o telegrama para o comandante Manoel Caldas Braga tomar Joinville dos fuzileiros navais de Florianópolis, na Revolução de 1930 em Joinville.

[2] Quem quiser saber mais sobre o coronelismo de Abdon Baptista nos primeiros anos da República, ver: THIAGO S. Raquel. Coronelismo urbano em Joinville: o caso de Abdon Baptista. Florianópolis: Governo do Santa Catarina, 1988.