A presença dos negros escravos em Joinville no século XIX

por Rafael José Nogueira - 19 de março de 2017

Apesar de existirem poucos trabalhos sobre os escravos em nossa cidade – frente aos inúmeros trabalhos sobre os imigrantes – existiram sim escravos em Joinville no século XIX. Iremos apresentar alguns aspectos. 

1. Origens

A colônia Dona Francisca surge em 1851, no mesmo período em que o governo imperial buscava fomentar a imigração e o trabalho livre assalariado como proposta para substituir o trabalho escravo. O historiador Dilney Cunha, uma das bases do texto, diz que a Sociedade Colonizadora de Hamburgo pediu formas de proibir o uso do trabalho escravo na Colônia Dona Francisca. O reflexo do pedido pode ser visto no Decreto Nº 537 de 15 de Maio de 1850, que firmava o contrato com a Sociedade Colonizadora de Hamburgo. No parágrafo 10 temos a proibição de mão-de-obra escrava: “§ 10. He prohibido absolutamente o emprego de braços escravos na Colônia […]” (BRASIL, 1850). Um pouco antes em 1848 na Lei Nº 514 de 28 de Outubro de 1848 no seu artigo 15 já tínhamos a proibição de trabalho escravo em terras destinadas para a colonização: “Art. 16 A cada huma das Provincias do lmperio ficão concedidas no mesmo, ou em diferentes lugares de seu territorio, seis leguas em quadra de terras devolutas, as quaes serão exclusivamente destinadas á colonização, e não poderão ser roteadas por braços escravos.” (BRASIL, 1848).

Segundo o pesquisador Dilney Cunha o pedido de proibição do trabalho escravos pela Sociedade Colonizadora de Hamburgo não vinha de uma mentalidade antiescravista ou abolicionista. O objetivo era criar barreiras para que os imigrantes não convivessem com os negros escravos e seus senhores os luso-brasileiros e assim preservar a cultura germânica. Dilney Cunha transcreveu um dos documentos que dá margem para esse entendimento da questão étnica: “Também nos foi confirmado pela Câmara, a proibição de manter escravos, o que irá contribuir ainda mais para a conservação dos costumes e da língua alemã […]”[1] Fica claro a intenção de impedir contatos entre os imigrantes com os brasileiros. Para Dilney Cunha o temor maior era de que abandonassem o trabalho livre assalariado e se valessem da escravidão, como aconteceu em outras colônias germânicas nesse período no Brasil. Lembrando que a concepção de trabalho era diferente do pensamento atual. No século XIX o trabalho manual e mais desgastante era mal visto. Ou seja, um trabalho para escravo. Uma vez os imigrantes expostos a essa cultura poderiam acabar aderindo a mentalidade e usando o trabalho escravo: “A ideia subjacente aqui é claramente a do trabalho (livre) como gerador de valores morais e riqueza” (CUNHA, 2008, p. 109).

A presença de escravos na região que hoje é Joinville data do começo do século XIX. São vários os proprietários que aparecem nas fontes com menções a seus escravos: Antônio de Oliveira Cercal, José Ferreira de Souza, José Fernandes Dias, Salvador Gomes de Oliveira, Coronel Vieira, Procópio de Gomes de Oliveira, entre outros[2]. Em média cada família possuía de 6 a 8 filhos e dois escravos conforme aponta Dilney Cunha. Entretanto ele nos relata que houve casos de senhores com 18 ou até 22 escravos. Outras famílias não contavam com um só escravo. Sobre os números de escravos ainda não temos dados mais precisos. Dilney Cunha postula que partindo da informação de 33 famílias morando na região de Joinville que na época era maior abarcando outros territórios, e fazendo um pequeno cálculo da média de escravos e filhos dessas famílias podemos propor que: “[…] aquelas 33 propriedades eram habitadas por cerca de 330 a 400 pessoas, entre as quais em torno de 60 a 70 escravos.” (CUNHA, 2008, p. 110). A pesquisadora Sandra Guedes nos apresenta outras informações, diz ela que existiam 50 famílias que habitavam a região logo após a chegada dos imigrantes em 1851, e dentro desse número aproximadamente 40 famílias possuíam escravos. (GUEDES, 2007, p. 4) Se calcularmos levando em conta a informação da média de filhos e escravos chegaremos a números relativamente próximos considerando a margem de erro. Pois, 40 famílias com 6 ou 8 filhos, o resultado fica entre 240 e 320 pessoas livres. E multiplicando o número de 40 famílias por 2 que era a média de escravos apesar das exceções temos o resultado de 80 pessoas escravizadas. O resultado geral fica entre 320 e 400 pessoas aproximadamente sendo 80 escravizadas.

Todavia a pesquisadora Sandra Guedes nos chama a atenção sobre a imprecisão dos números nas fontes. No censo de 1872 a freguesia de São Francisco Xavier de Joinville que a época compreendia um território bem maior que o atual, contabilizava 75 escravos. O problema é que nos registros de inventários e batizados entre 1872 e 1888 só de mulheres escravas tem-se o número 60 mulheres, sendo que só está registrado mulheres que tiveram filhos. E quanto ao censo de 1872, o número de 75 escravos refere-se apenas aos escravos mortos no período. (GUEDES, 2007, p. 6-7). Desta forma o número pode ser muito maior. Apoiado nos documentos eclesiásticos Dilney Cunha apresenta entre 1857 e 1889: “[…] 74 óbitos, 123 batizados e 30 casamentos de afro-brasileiros.”

[1] Relatório da Direção Provisória da Sociedade Colonizadora de 1849 em Hamburgo, traduzida por Helena Richlin e apresentada por Dilney Cunha em seu livro “História do Trabalho em Joinville”. Pode ser consulta no Arquivo histórico de Joinville.

[2] Quem quiser saber mais ver: CUNHA, Dilney. Negros, trabalho e sociedade em Joinville Gênese. In: História do Trabalho em Joinville.

Imagem A: Podemos ver a descrição de duas mortes. Data: Gazeta de Joinville de 31 de Agosto de 1880. Fonte: Biblioteca Nacional.

Vemos a descrição na imagem da morte de Fabricio escravo do proprietário João Gomes de Oliveira de 21 anos. Ele aparece na lista que está disponível na internet por seu descendente Ricardo Costa de Oliveira. Deve ter sido uma perda considerável para este senhor. O escravo era uma propriedade valiosa e não pode contar com um braço escravo jovem num período que a escravidão apodrecia cada vez mais, era ruim do ponto de vista rentável. Depois temos uma morte que era comum no século XIX, a de um bebê de 1 ano e 9 meses, descrito como “ingênuo” de mãe escrava. Foi portanto beneficiado pela lei do ventre livre de 1871 que dava a liberdade para a todos filhos nascidos a partir de mãe escrava de 1871 em diante. O padre Carlos Boegershausen fazia o trabalho de registro conforme estipulava a lei de 1871: “§ 5.º – Os párocos serão obrigados a ter livros especiais para o registro do nascimento e óbitos dos filhos de escravas, nascidos desde a data desta lei. Cada omissão sujeitará os párocos à multa de 100$000.” (BRASIL, 1878).

2. Escravidão em Joinville nos documentos 

Há ainda o relato imigrantes em cartas e de viajantes que passaram por aqui no século XIX e registraram a presença negra. Um registro interessante é a do viajante James Cooley Fletcher que era missionário e pastor presbiteriano e passou por aqui em 1855: “Determinei partir para a colônia [Dona Francisca] muito cedo na manhã seguinte, e para este fim, o Sr. V que procurou uma canoa que pertencia a um corpulento escravo que desfrutava do nome apropriado de José Grande.” (FLETCHER, 1867, p. 27). Na chegada dos imigrantes em 1851 é provável que os escravos tenham os ajudados a carregar suas bagagens de São Francisco do Sul para a Colônia Dona Francisca. Esses escravos são oriundos do sistema de aluguel de escravos. Dito de outra forma, os chamados “escravos de ganho” que aprendiam um oficio e eram alugados por seus senhores para determinado trabalho como o transporte que é o caso que nos parece, ou ainda era liberado para frequentar a cidade e realizar o seu oficio, e uma parte da renda ele guardava com a permissão do seu dono. (CUNHA, 2008. P. 112).

Como foi dito houveram proibições sobre o uso de trabalho escravo nas áreas de colonização, mas isso parece não ter impedido dos imigrantes usarem esse tipo de mão-de-obra. O primeiro caso trazido por Dilney Cunha fala de Felizarda falecida em 1880 que foi escravo de Gustavo Seiler, que trabalhava como feitor no engenho de mate de propriedade de Eduard Trinks. Sobre o primeiro Cunha diz que não temos muitas informações a não ser que era suíço e imigrou ainda criança para cá. Isso abre dúvidas, pois era permitido casar com uma mulher brasileira que tivesse escravos deste modo herdando-os. Contudo o senhor Trinks usufruía do trabalho escravo de Felizarda mesmo que indiretamente. Pois esta deveria trabalhar no seu engenho de mate para o seu funcionário Gustavo Seiler. Já sobre as informações este imigrante, sabemos que veio da região que depois seria a vir a Alemanha já casado e portanto com sua família. (CUNHA, 2008, p. 113). Não fica dúvidas de ele ser casado com uma luso-brasileira.

Outra prova é nos apresentada também por Dilney Cunha em uma nota assinada por imigrantes da Colônia Dona Francisca em 1867 denominado, “Escravos fora” onde denunciavam a utilização de trabalho negro na colônia. Devido ao delegado Adolf Haltenhoff ter intimido em um aviso em alemão aos envolvidos a se apresentarem e darem explicações, Cunha conclui então que imigrantes estavam usando trabalho escravo. Os casamentos entre colonos e brasileiros creio ser mais difícil em virtude da preservação de sua etnicidade. Por isso ainda que entre um ou outro colono tenham casado com uma brasileira, é provável que nem todos eles envoltos na questão tiveram matrimônio com brasileiras. Pode-se argumentar que eles tão somente alugavam os escravos de outros. Creio ser frágil esse argumento, uma vez que os imigrantes vinham de uma classe mais baixa e tiveram muitas dificuldades para se estabelecer aqui, além de arcarem com o custo de seus lotes de terra e as dividas frequentes com vendeiros. É de supor que poucos teriam dinheiro para alugar escravos. Ademais, depois do fim do tráfico de escravos, o preço dele aumentou consideravelmente. No relatório da direção provisória da sociedade colonizadora de Hamburgo em 1849, podemos ler um fato interessante: “Não muito distante da nossa colônia, há significativas plantações de café, as quais, a alguns anos atrás, foram preparadas para receber colonos alemães. As plantações são feitas pelos negros e quando estiverem prontas, serão entregues aos imigrantes alemães em forma de arrendamento” (Relatório da Direção Provisória da Sociedade Colonizadora de 1849 em Hamburgo traduzida por Helena Richlin). Diante de tudo isso é certo que os colonos estiveram envolvidos de alguma forma com o trabalho escravo. Seria melindroso afirmar que o elemento escravo não esteve pela região estabelecendo relações com os imigrantes.

Em relação a ocupação dos escravos, a maior parte se concentrava em duas grandes funções: lavoura (Imagem B) e trabalhos domésticos (Imagem C). Não se limitaram só a esses trabalhos como já foi exposto realizavam trabalhos como escravos de ganho na cidade, geralmente com vendas e prestando serviços a quem passava por ela. E claro funções como escravos alugados como foi o caso do transporte de imigrantes e suas bagagens.

IMAGEM B: Anuncio de compra de escravo. Data: Gazeta de Joinville 23 de Julho de 1878. Fonte: Biblioteca Nacional

IMAGEM C: Anuncio oferecendo-se para comprar uma escrava. Data: Gazeta de Joinville de 22 de Fevereiro de 1878. Fonte: Biblioteca Nacional.

Não fugiram no entanto das atividades agrícolas e dos serviços domésticos. Na primeira imagem pede-se um escravo jovem e com aptidão para a lavoura, o que sugere que se tratava com certeza de um senhor de terras. Supondo que ele tivesse em média um ou dois escravos como alude Dilney Cunha. Um de seus escravos pode ter ficado velho e chegado ao óbito. Outra hipótese é a alforria.

Na outra imagem o senhor Affonso Augusto dos Santos pede uma escrava mais velha e de confiança, muito provavelmente para trabalhar em sua casa. Ao que consta ele não anunciou mais se oferecendo para comprar uma escrava nas edições posteriores do jornal que era semanal. Isso indica que ele obteve êxito rápido em achar uma escrava para ser comprada. Uma outra pista é que o mesmo citado anunciou duas vezes seguida a venda de um material no âmbito da construção. O comércio devia ser dinâmico na região.

Os escravos instalados na região nos diz Dilney Cunha eram na maior parte “Crioulos”. Em resumo negros já nascidos no Brasil: “Como lugar de nascimento aparece geralmente São Francisco do Sul, embora outras localidades sejam citadas” (CUNHA, 2008, p. 114). É plausível que pelo porto de São Francisco do Sul entraram escravos de outras localidades do país. Não por conta de um comercio intenso, mas por ser um canal mais perto para abastecer a região da Colônia Dona Francisca. Pelo que aparece nas fontes houveram padres com escravos na região. No jornal Gazeta de Joinville 16 de Agosto de 1882 aparece um pequeno artigo sobre três processos instaurados na região de Paraty [Araquari], um deles se refere sobre: “[…] a morte de um escravo do Padre Maciel […]” (GAZETA DE JOINVILLE, 1882, 16 de Agosto de 1882). É um fato instigante pensar que um padre tivera sob seu poder um escravo. Não foram achados mais elementos sobre este personagem. Cabe a pesquisas futuras desvendar as relações entre religiosos e a escravidão. Os nomes de padres aparecem sempre ligados a política nos partidos liberal e conservador na cidade e região. Não seria absurdo um padre ter escravos conforme na fala Clóvis Moura.[1]

[1] MOURA, Clóvis. Dicionário da escravidão negra no Brasil. São Paulo: Edusp, 2004.

Um dos processos no mesmo artigo é sobre o incêndio em uma casa de uma liberta. Segundo o jornal só salvou a própria mulher liberta com sua roupa do corpo. É revelador o trecho que versa sobre a situação social da mulher: “É difícil, porque o seu único arrimo hoje é a caridade publica, porque não tem amizade e dinheiro, como talvez tenha o seu ofensor” (GAZETA DE JOINVILLE, 1882. 16 de Agosto de 1882). Vemos uma das características de libertos, a sua não inserção na sociedade. Nas relações sociais a mulher em questão podia até ser liberta e ter uma casa, isso não dava o direito de ela pertence a sociedade. Os negros eram seres estranhos na percepção da época, um intrometido que acaba com o sossego do convívio social. Podiam ser tolerados, jamais como um igual. A liberdade não era credencial para a cidadania plena.

3. Outras informações: Alforrias e conflitos

Outro ponto que merece atenção são as alforrias onde era possível ver o caráter personalista e autoritário na visão de Dilney Cunha do pensamento brasileiro dos donos poder invocando Raymundo Faoro. Na imagem abaixo (IMAGEM D) datada de 1880 temos um ato do presidente da província João Rodrigues onde ordena ser distribuído entre algumas cidades um repasse para a libertação de escravos. A cidade de Joinville aparece com a menor verba, por ser a com menos escravos já que a importância era distribuída conforme a proporção de escravos de cada município. No mesmo aviso mandar as juntas classificadores se reunirem e libertarem os escravos com as quotas do fundo de emancipação que cada município tinha direito todos os escravos que estarem dentro dessa quota. A lei do vente livre de 1871 previa isso: Art. 3.º – Serão anualmente libertados em cada província do Império tantos escravos quantos corresponderem à quota anualmente disponível do fundo destinado para a emancipação (BRASIL, 1871). Era no fundo uma tentativa gradual de substituir a escravidão vista como um sistema falido e degradante pelo trabalho livre assalariado.

IMAGEM D: Fundos para libertação de escravos. Data: Gazeta de Joinville de 31 de Agosto de 1880. Fonte: Biblioteca Nacional.

Dilney Cunha nos traz um evento já perto da abolição em 1888 em que foram libertadores 40 escravos em Joinville. (CUNHA, 2008, p. 116). Não era um gesto humanitário, como pode-se pensar. O discurso abolicionista estava entrelaçado com a imigração e o trabalho livre, duas ideias consideradas progressistas em comparação com o sistema escravocrata que atrasava o país e estava apodrecendo na concepção da época.

4. Jornal Folha Livre

Se existiu um movimento abolicionista em Joinville ele pode ser visto a partir de meados da década de 80 dos oitocentos um exemplo foi o jornal Folha Livre. Fundado em 1887 não nasceu com o ideal abolicionista é bem verdade, ele foi se desenvolvendo em suas edições. O princípio inicial era a causa republicana, porém pregava isso de forma moderada. Apesar disso ao se ler o jornal vemos que com o tempo ele foi mais abolicionista do que republicano. Em número de 1 de Maio de 1887 comenta sobre sua posição abolicionista que: “[…] o ultra-abolicionismo não estava, é verdade, expresso verbalmente em nosso programa, mas ressaltava d´dele, como um raio de um foco; era um corolário das nossas ideias democratizadoras.” (FOLHA LIVRE, 1 DE MAIO DE 1887). Meses antes na edição de 20 de Março o jornal fala ter sido alvo de ataques por defender a causa abolicionista:

A folha livre depois de se ter manifestado sinceramente abolicionista […] tem sido alvo dos ataques e da inimizade de certos senhores que lutam para que as coisas fiquem no seu status quo. […] Felizmente para o bom conceito do povo de Joinville é bem pequeno número desses senhores. A Folha não deve importar-se com os assinantes que a devolvem por este motivo, ao contrário deve entregar-se de corpo e alma, a defesa do abolicionismo, por que assim irá de acordo com seu programa (FOLHA LIVRE, 20 DE MARÇO DE 1887).

Parece-nos que o jornal incomodava mais os senhores do entorno de Joinville do que propriamente os senhores de Joinville. A Folha fala sobre devoluções de assinantes o que nos leva a pensar que haviam muitos que viam a escravidão como um sistema aceitável. Por fim se declara abolicionista. Certamente isso explica o porquê do jornal dar esclarecimentos em Maio. Com os ataques não cessando e cada vez mais perdendo assinantes, sentiram obrigados a pontuar suas posições.

Entre estes senhores temos o exemplo de Frederico Brustlein (Imagem E) aparecendo no jornal em 24 de Abril de 1887 alforriando um escravo, pagando a quantia que o seu dono não citado pedia, além de dar um trabalho assalariado para o mesmo. Por que ele faria isso?

IMAGEM E: Libertação de um escravo por Frederico Brustlein. Data: Folha Livre de 24 de Abril de 1887. Fonte: Biblioteca Nacional.

Precisamos de alguns subsídios sobre o Frederico Brustlein, para entender esse ato. Veio como procurador do príncipe de Joinville em 1863. Governou Joinville primeiro como diretor da Colônia Dona Francisca e depois duas vezes como presidente da Câmara Municipal entre 1887 a 1890 e 1895 a 1899, que equivale como o cargo atual de prefeito. Até aqui conseguimos visualizar que foi um parlamentar notável na história política de Joinville. Outro elemento que nos interessa mais é que ele era do partido conservador neste momento. O partido nunca apresentou um projeto escrito, dificultando saber se era alinhado com a abolição. José Murilo de Carvalho pede prudência ao analisar os partidos do período imperial em termos simplistas. Sobre o partido conservador ele fala que: “Em geral, dentro do Partido Conservador, o elemento burocrático, sobretudo os magistrados, tendia a favorecer o elemento burocrático e as reformas sociais.” (CARVALHO, 2008, p. 222). A formação inicial de Frederico Brustlein era em Engenharia químico e agrônomo. Em terras joinvilenses foi procurador do príncipe de Joinville e teve ocupações políticas. Portanto esteve envolvido com a magistratura de certa forma, o que teria o induzido as reformas sociais, talvez imbuído pela relação imigração-trabalho livre assalariado. Apesar do partido ter se confrontado internamente com a lei do ventre livre em 1871, foi com ministérios conservadores que as principais leis contra a escravidão foram aprovadas: “Todas as principais leis de reforma social, tais como a abolição do tráfico de escravos, a lei do ventre livre, lei da abolição, a lei de terras, foram aprovadas por ministros e câmara conservadoras” (CARVALHO, 2008, p. 224).

Voltando ao Folha Livre em 3 de Abril 1887 o jornal noticiava animado a libertação de um escravo pelo fundo de emancipação e outros por não estarem inscritos na matricula de escravos que havia expirado mediante nova lei. Apresenta o número de 96 escravos: 48 homens e 48 mulheres com a curiosa coincidência de 48 relações de 48 senhores. Sem contar que na primeira página trazia o título sintomático “Abolicionismo”, nele exalta as províncias do Amazonas, Ceará e o Rio Grande do Sul que a esta altura em 1887 já não contavam mais com escravos. É visível que o trabalho livre era o sistema que neste momento era vista como a solução para os grupos ligados a abolição, com a Folha Livre não foi diferente: “O homem quer ser livre para ser bom e o trabalho quer ser livre para ser fecundo […] Se o Brasil está materialmente em estado lastimável atraso, o deve à escravidão que avilta a religião do trabalho” (FOLHA LIVRE, 1887, 3 de Abril de 1887, p. 1) Sobre a situação dos escravos descreve condições ruins, como era basicamente em todas as regiões do país onde ainda haviam escravos: “Em Joinville apareceram já escravos escravas siviciados, esfarrapados, semi-nús queixando-se as autoridades. […] Mas em compensação há senhores que tem forrado ultimamente todos os que possuem e a essas almas generosas a Folha Livre tem salvado cheio de entusiasmo e agradecido fervorosamente em nome de nossa pátria.” (FOLHA LIVRE, 1887, 3 de Abril de 1887, p. 2). Fica mais aparente neste trecho que os escravos existiam de fato em Joinville e viviam sob péssimas condições. Conseguimos visualizar também o sistema escravista chegando ao seu fim com os senhores cada vez mais libertando seus escravos. O número apresentado de 96 escravos divididos em 48 homens e mulheres é extremamente baixo quando relacionados com números de outros municípios de Santa Catarina, nem por isso menos importante. Não obstante, esse dado é impreciso como já foi dito anteriormente, ele parece abarcar apenas escravos matriculados. É possível que o número pode aumentar com mais pesquisas.

Podemos atribuir seu espirito abolicionista a João Evangelista Leal, um dos colaboradores do jornal. Homenageado por libertos no dia 15 de Maio de 1888 dois dias após a abolição em frente à sua casa. O Kolonie Zeitung falava em chuva forte no dia 13 de Maio, o que parece não ter sido empecilho para as comemorações na cidade com vários foguetes e desfiles.

Termino com a história do escravo Luiz apresentada no mesmo número de 3 de Abril. Ajuntou algum dinheiro para comprar sua liberdade e sair do julgo de seu senhor João Gomes de Oliveira. O proprietário foi comunicado e chamado para juízo e negou-se a conceder a liberdade para Luiz, por segundo a lei o próprio João Gomes de Oliveira deveria nomear avaliadores e fixar um preço para a liberdade de Luiz, bem como seu guardião Leônidas de Barros que o representava. Obviamente João Gomes de Oliveira não iria fazer isso, pois a lei o ajudava nesse caso. O escravo não deveria ter muita instrução e entender todo o processo. Na lista já citada de Ricardo Costa Oliveira de 1880 ele aparece com 29 anos. Não sabemos o que aconteceu com ele. Pode ter sido liberto em 1888 com a abolição, ou pode ter falecido, nunca iremos saber talvez.

 5. Considerações finais

A assertiva de Dilney ao dizer que se existe figuras esquecidas em Joinville essas são os negros é precisa. A historiografia tem dando mais destaque e ênfase para a colonização em Joinville. É gigante o número de trabalhos sobre imigrantes ou questões relacionados a eles em comparação com publicações sobre os negros. Não tenho a pretensão de culpabilizar os imigrantes, eles têm seu mérito, sem sombra de dúvida. Fica claro contudo que Joinville foi construída com várias mãos e não só algumas. Apenas constato um silêncio sobre a história do negro em Joinville. Questão infelizmente se amplia a nível estadual. Eu gostaria de abordar outros temas neste artigo, mas por conta do tamanho já imenso do texto, preferi parar por aqui. O leitor pode achar exagerado o tamanho de texto para um blog. Peço desculpas por não ser prolixo, como a dinâmica de um blog pede. Porém, quando nos debruçamos sobre materiais sobre a história dos negros em Joinville, contamos nos dedos as publicações, e quase sempre trabalhos pequenos, sem uma densidade maior, como tem sido feito com o tema da imigração.

Por fim espero ter contribuído ainda que pouco para trazer a luz esses personagens tão esquecidos da nossa história, mas que fizeram muito pela nossa sociedade.

Referências 

ARQUIVO HISTÓRICO DE JOINVILLE. Relatório da Direção Provisória da Sociedade Colonizadora de 1849 em Hamburgo traduzido por Helena Richlin. Joinville: AHJ, 2017.

BRASIL. Coleção das Leis do Império do Brasil -1850. Rio de Janeiro: Typografia Nacional, 1850.

CARVALHO, José Murilo. A Construção da Ordem/Teatro de Sombras. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1996.

CUNHA, Dilney. Negros, trabalho e sociedade em Joinville. In: História do trabalho em Joinville: gênese. Santa Catarina: Todaletra, 2008.

FERNANDES, Mario Luiz; RODRIGUES, Genielli. O discurso da imprensa republicana catarinense (1885-1889). In: XI Colóquio Internacional de Comunicação para o Desenvolvimento Regional, 2006, São Bernardo do Campo. UNESCOM 2006 – Congresso Multidisciplinar de Comunicação para o Desenvolvimento Regional. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, 2006. p. 01-17.

GUEDES, Sandra Paschoal. Leite Camargo. A escravidão em uma colônia de alemães. In: XXIV Simpósio Nacional de História, 2007, São Leopoldo. XXIV Simpósio Nacional de História – Caderno de Resumos. São Leopoldo: Oikos, 2007. v. 1.

MOURA, Clóvis. Dicionário da escravidão negra no Brasil. São Paulo: Edusp, 2004.

PEDRO, Joana Maria; CZESNAT, Ligia de Oliveira. FALCÃO, Luís Felipe; SILVA, Orivalda Lima; CARDOSO, Paulino Jesus Francisco; CHEREM, Rosângela Miranda. Escravidão e preconceito em Santa Catarina: história e historiografia. In: Ilka Boaventura Leite. (Org.). Negros no Sul do Brasil: invisibilidade e territorialidade. 1ed.Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1996

JORNAIS CONSULTADOS NA BIBLIOTECA NACIONAL DIGITAL:

FOLHA LIVRE. Joinville. Março de 1887. Hemeroteca digital da Biblioteca nacional.

FOLHA LIVRE. Joinville. Abril de 1887. Hemeroteca digital da Biblioteca nacional.

FOLHA LIVRE. Joinville. Maio de 1887. Hemeroteca digital da Biblioteca nacional.

GAZETA DE JOINVILLE. Joinville. Fevereiro de 1878. Hemeroteca digital da Biblioteca nacional.

GAZETA DE JOINVILLE. Joinville. Julho de 1880. Hemeroteca digital da Biblioteca nacional.

GAZETA DE JOINVILLE. Joinville. Agosto de 1880. Hemeroteca digital da Biblioteca nacional.

GAZETA DE JOINVILLE. Joinville. Agosto de 1882. Hemeroteca digital da Biblioteca nacional.

Para saber mais:

Vale a pena consulta a lista de Ricardo Costa de Oliveira que está disponível na seguinte referência

COSTA, Ricardo da. Escravos e Índios em Joinville de 1880.Disponível em: http://listsearches.rootsweb.com/th/read/BRAZIL/2000-01/0948027867 . Acesso em: 19 mar. 2017.

É interessante acessar matéria do jornal notícias do dia sobre o cemitério dos imigrantes onde é transcrita a lista dos 14 negros entre libertos e escravos enterrados no cemitério e trazido ao público em 2009. A lista foi feita pelo já falado no texto Padre Carlos Boegershausen:

SILVA, Suelen Soares da. Cemitério do Imigrante aguarda uma restauração urgente pela conservação da história de Joinville. Disponível em: https://ndonline.com.br/joinville/plural/cemiterio-do-imigrante-aguarda-uma-restauracao-urgente-pela-conservacao-da-historia-de-joinville. Acesso em: 19 mar. 2017.

Não podemos deixar de indicar claro os documentos presentes do Arquivo histórico de Joinville: Mapas, relatórios, fotos e muito mais.

Indico o trabalho de Denize Aparecida Silva intitulada: “PLANTADORES DE RAIZ”:  Escravidão e compadrio nas freguesias de Nossa Senhora da Graça de São Francisco do Sul e de São Francisco Xavier de Joinville – 1845/1888. ”. Pode ser acessada online.

Finalmente recomendo o texto de Arselle Andrade da Fontoura e Janini Gomes da Silva.

SILVA, Janini Gomes; FONTOURA, Arselle Andrade Da. “… quer ser declarado livre”: histórias sobre a presença negra em Joinville no século XIX. Joinville Ontem & Hoje. Joinville, v. 3, p. 22-25, 2005.

Pode ser baixado no link:

https://mega.nz/#!k4MxUC4C!W1tzL3QmqLRBzbA2Kxf9XhBxDaJARzpMw-CO505Tpgw

7. Para saber mais:

Vale a pena consulta a lista de Ricardo Costa de Oliveira que está disponível na seguinte referência

COSTA, Ricardo da. Escravos e Índios em Joinville de 1880.Disponível em: http://listsearches.rootsweb.com/th/read/BRAZIL/2000-01/0948027867 . Acesso em: 19 mar. 2017.

É interessante acessar matéria do jornal notícias do dia sobre o cemitério dos imigrantes onde é transcrita a lista dos 14 negros entre libertos e escravos enterrados no cemitério e trazido ao público em 2009. A lista foi feita pelo já falado no texto Padre Carlos Boegershausen:

SILVA, Suelen Soares da. Cemitério do Imigrante aguarda uma restauração urgente pela conservação da história de Joinville. Disponível em: https://ndonline.com.br/joinville/plural/cemiterio-do-imigrante-aguarda-uma-restauracao-urgente-pela-conservacao-da-historia-de-joinville. Acesso em: 19 mar. 2017.

Não podemos deixar de indicar claro os documentos presentes do Arquivo histórico de Joinville: Mapas, relatórios, fotos e muito mais.

Indico o trabalho de Denize Aparecida Silva intitulada: “PLANTADORES DE RAIZ”:  Escravidão e compadrio nas freguesias de Nossa Senhora da Graça de São Francisco do Sul e de São Francisco Xavier de Joinville – 1845/1888. ”. Pode ser acessada online.

Finalmente recomendo o texto de Arselle Andrade da Fontoura e Janini Gomes da Silva.

SILVA, Janini Gomes; FONTOURA, Arselle Andrade Da. “… quer ser declarado livre”: histórias sobre a presença negra em Joinville no século XIX. Joinville Ontem & Hoje. Joinville, v. 3, p. 22-25, 2005.

Pode ser baixado no link:

https://mega.nz/#!k4MxUC4C!W1tzL3QmqLRBzbA2Kxf9XhBxDaJARzpMw-CO505Tpgw