Revolução de 1930 em Joinville através de imagens

por Alison Felipe - 07 de Março de 2017

A fotografia tem sempre sido deixada em segundo plano na historiografia. Ainda que a noção de documento tenha se ampliado no século XX, os documentos escritos continuaram predominando na reconstrução dos fatos históricos. As imagens são sempre os “anexos” isto é, a parte decorativa, muito pouco problematizados. A imagem é vista em muitos estudos como apenas arte. Visão essa errada. A imagem também é um texto que deve ser lida. A imagem é o texto e o texto é a imagem. Como documento histórico as imagens merecem ter o mesmo tratamento que as fontes escritas. A Revolução de 1930 foi amplamente fotografado em todo o Brasil. Em Santa Catarina não foi diferente. Maria Luiza Tucci Carneiro aponta alguns pontos a serem analisados quando olhamos as fotos do movimento:

  1. A geografia do movimento (seus avanços e recuos);
  2. A atitude da massa e dos indivíduos diante da ideia de revolução;
  3. A construção dos novos mitos e a destruição de antigos valores;
  4. O papel sócio-político da mulher;
  5. O jogo de compromissos morais e políticos;
  6. O poder em cena;
  7. O papel da igreja e do Exército;
  8. A construção do cenário político. (CARNEIRO, 1988, p. 266)

Propomos fazer uma pequena análise de algumas fotografias do álbum “Lembranças da Revolução” tendo como local a cidade de Joinville durante o evento da Revolução de 1930. Além de algumas comparações. Vamos a elas.

A primeira imagem é famosa, retrata a o quartel do na 13º Batalhão de Caçadores (atual 62º Batalhão de Infantaria). A foto é datada de 10 de Outubro de 1930 e foi tirado provavelmente pelo fotógrafo Adolfo Briese. A foto mostra o quartel já tomado das forças legalistas pelos soldados revolucionários, comandados pelo Capitão Manoel Caldas Braga. Os personagens na foto são: começando da esquerda para direita um soldado não identificado, o Tenente ou comandante da Força pública Estadual Barata, o Capitão Manoel Caldas Braga e mais um soldado não identificado. (Apesar de não parecer, está na descrição da foto, é possível que seja um voluntário). Na foto vemos o rosto de “quem” a revolução, encarnado na figura de Manoel Caldas Braga – o vencedor – e ao mesmo tempo “quem” foi derrotado – o perdedor – no caso Augusto Barata da força pública que resistiu em Joinville e foi preso e acabou aderindo a revolução. Reparemos como o Capitão Caldas Braga está à frente olhando fixamente para a câmera assim como o soldado apoiado sobre a arma, se afirmando como os “atores da revolução”. Já Augusto Barata está ao fundo numa posição de inferioridade e olha para outra direção, querendo talvez não admitir que a sua resistência foi inútil. Há ainda um rapaz que pode ter sido um voluntário ou ajudante dos revolucionários. O que estaria pensando esse jovem? Qual sua visão do que tinha acontecido na cidade naquele momento? São algumas perguntas que pesquisas futuras poderão responder. Comenta Maria Luiza Tucci Carneiro: “Impõe-se, para aqueles que estão em cena, aparecer no melhor plano possível, conduzindo a mudança ou a revolução. Nunca ser conduzido. As imagens permanecem e sobre elas, a ideologia política. “ (CARNEIRO, 1988, p. 272). A foto ter sido tirada em frente à sede do Batalhão não foi por acaso, se jogou com a simbologia do lugar. Os vencedores deveriam ficar em evidencia em um espaço seu e de identificação simbólica nada mais adequado que a sede do quartel do batalhão, o local máximo do poder militar em Joinville.

Na foto vemos ao fundo a sede do 13º BC depois de ser tomada pelos revolucionários no dia 10 de Outubro. Fonte: Arquivo histórico de Joinville.

A segunda imagem também é bem conhecida. Não sabemos o fotógrafo. A imagem é do dia 10 de Outubro de 1930 e mostra-nos um combatente morto no “Porto” atual Mercado municipal. Cruzando as fontes, elas nos remetem ao tiroteio no “Porto” onde morrerem 6 fuzileiros e 2 soldados do 13º B.C

Combatente morto na área conhecido como Porto. Data: 10.10.1930. Fonte: Arquivo histórico de Joinville.

É nas revoluções que nascem os heróis sejam eles vivos ou mortos. Eles se tornam personagem transfigurados na simbologia do poder.  A imagem do combatente morto relaciona-se com a ideia de injustiça perpetrada contra quem “morreu por um ideal” seja o ideal legalista ou revolucionário. O morto sai de cena e entra em seu lugar um modelo deificado para as próximas gerações. A morte em si é simbólica e temos um poder político nessa imagem. Em outras palavras é o herói morto. O personagem caído com os abraços abertos representa o mártir que lutou por suas ideias e por uma circunstância do desenrolar do movimento que foi esse combate ele deixa a vida para se tornar o símbolo de uma geração que quis ao seu modo próprio um novo Brasil.

A terceira imagem é pouco conhecida e mostra de certa a forma a figura da mulher na revolução de 1930 em Joinville. Fotos com mulheres é algo bastante raro no movimento de 1930. Quando aparecem sempre estão em segundo plano, frente aos homens que se destacam. O soldado e a mulher encostada no carro numa posição mais “formal” não existem registros de identificação. Porém a moça de chapéu é identificada como Irmgard Lepper, filha de Affonso Lepper, família tradicional de Joinville e de posses. A outra moça assim como Irmgard denotam mulheres de uma condição social alta, pelas suas vestimentas. Mulheres privilegiadas que aparentam pertencer a uma classe econômica com mais poder aquisitivo. As imagens com mulheres segundo Maria Luiza Tucci Carneiro geralmente mostram: […] um grupo feminino privilegiado, econômico e socialmente identificado com a oligarquia” (CARNEIRO, 1988, p. 274). Com a personagem identificada não é diferente seu pai tinha um estabelecimento comercial que já: a Affonso Lepper & CO – Casa de Ferragens e Representações, este por sua vez era filho do empresário e líder social e político Hermann August Lepper, um dos colonos importantes do início da colonização, e também mulher, Helene Dorothea Trinks Lepper, a dona Helena, que deu nome ao hospital Dona Helena. Ou seja, Irmgard Lepper não era qualquer mulher, uma operária por exemplo.

A imagem mostra Irmgard Lepper mais uma mulher e um soldado. Fonte: AHJ

Importante lembrar que as mulheres nunca são mostradas na posição de combatentes com armas, ou mesmo uniformizadas como os revolucionários homens. Sua presença é requisitada sempre a posteriori dos acontecimentos, já nas festividades e campanhas em prol dos revolucionários. Aqui novamente eles aparecem fora do local de algum combate a princípio. É uma das poucas imagens envolvendo mulheres no episódio de Joinville. Pesquisadores tem deste modo uma possibilidade de pesquisar qual a real participação das mulheres no evento de 1930 em Joinville.

Entretanto por que a apatia dos catarinenses em relação ao movimento? Por que apenas um papel secundário num fato de tamanha magnitude? O próprio Emembergo Pellizzetti registra em seu diário sobre a questão no dia 27 de Outubro: “Lembro-me agora que nem um só indivíduo dessa localidade teve a coragem de espontaneamente juntar-se nos primeiros dias às tropas revolucionárias, acho isso pouco edificante” (LOLLA, 1997, p. 176). O Major Plinio Tourinho ao pos-fasciar o livro de Beatriz Pellizzetti apresenta alguns aspectos das terras catarinenses que podem talvez responder: fraca repercussão da administração estadual isolada em Florianópolis, o transporte ferroviário mais desenvolvido no Paraná numa época de estradas com péssima qualidade, o isolamentos dos imigrantes não ocasionando miscigenação como no território paranaense, logo a identificação dos imigrantes catarinenses era muito mais com líderes de seus países do que com políticos brasileiros, o governo eleito de Santa Catarina Fúlvio Aducci em 1930 tinha uma aceitação boa entre os catarinenses, já Afonso Camargo eleito em 1928 era um desastre na gestão do Paraná o exemplo foi os 10 meses de atraso de salários dos funcionários público sendo a faísca para explodir o movimento em Ponta Grossa e Curitiba no dia 5 de Outubro, e a localização das tropas federais, com Santa Catarina tendo apenas dois batalhões de Caçadores e duas baterias de artilharia com número muito abaixo do ideal de soldados, e finalmente a natureza dos oficiais e sua característica revolucionária herdada dos anos 20 entre as tropas paranaenses que alinhavam população civil e militares sob a égide de Plinio Tourinho, bem diferente de Santa Catarina sem essa relação mais próxima entre exército e civis, a prova disso foi que os movimentos revolucionários voluntários foram pontuais e pouco expressivos. Emembergo Pellizzeti trabalha com a ideia de um trauma oriunda de outras revoluções mais violenta que os catarinenses passaram antes do movimento de 1930: “Acho que todo este medo e terror da gente, especialmente do campo, é devido as tristes recordações das revoluções passadas durante as quaes se deram factos que dão calafrios somente a lembrar” (PELLIZZETTI, 1988, p. 159). O passado e sua interpretação como negócio tem como moeda de troca o sentido da subjetividade. Sendo assinala a relação entre lembrança e esquecimento na construção da cultura histórica. Sendo assim a revolução federalista como lembrança dolorida foi relegada ao esquecimento, mas quando veio a revolução de 1930, a lembrança voltou e junto com ela o medo.

É clássica a afirmação de José Sarney quando diz que a revolução atrasou em trinta anos o movimento sindical no Brasil. O movimento revolucionário atingiu o cidadão catarinense de surpresa, foi um choque grande. “É a revolução gaúcha” diziam alguns.

Os personagens principais do movimento em Santa Catarina sabiam que no fundo a motivação da aceitação de Santa Catarina ao movimento era muito mais uma disputa entre os coronéis do planalto e os oligarcas do litoral. De um lado o partido republicano catarinense dividido entre “hercilistas” e “Lauristas” contra os aliancistas. Importante ainda dizer que é engano pensar que a revolução de 1930 começou no dia 3 de outubro. Ela iniciou em 1922 com o primeiro levante tenentista. O acontecimento de 1930 foi o ato final.

Referências:

CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. A Imagem da Revolução de 30. Perspectivas metodológicas do ensino de história, v. 1, p. 266-280, 1988.

NOGUEIRA, Rafael José. A Revolução de 1930 em Joinville. Revista História Catarina, v. 10, p. 34-43, 2016.

ARQUIVO HISTÓRICO DE JOINVILLE.

Autor: Rafael José Nogueira. Graduado em História pela Univille.